Meio ambiente e tecnologias de informação

sábado, 20 de maio de 2017
"Cinismo é o máximo de sofisticação filosófica. Só ele se aproxima da verdade."  -  Millôr Fernandes  -  A Bíblia do caos

As tecnologias de informação englobam toda a linha de produtos eletrônicos e de informática e representam um dos mais importantes setores industriais. No Brasil, as tecnologias de informação (TI) movimentaram cerca de R$ 192 bilhões em 2014. O mercado brasileiro de TI é o sétimo maior do mundo em número de consumidores, representando 46% do faturamento do mercado de informática da América Latina. Em 2017, segundo especialistas, este mercado deverá movimentar cerca de R$ 236 bilhões; um aumento de 2,9% em relação a 2016.
Os maiores fabricantes (montadoras) de equipamentos de TI no Brasil são as empresas Dell, HP, Lenovo, Acer, Positivo, entre as principais. A fabricação de equipamentos eletrônicos foi de 9,4 milhões de unidades de PCs e tablets e de 70,3 milhões de celulares em 2014. A recessão econômica fez com que esses números tivessem uma redução significativa a partir de 2015, acumulando uma queda de mais de 30% em 2016.
O descarte de produtos eletrônicos e de informática constitui o que se chama de resíduos eletrônicos. O Brasil produzia em 2015 cerca de 2,5 kg de resíduos eletrônicos por habitante/ano (para uma população de 205 milhões de habitantes em 2015). Segundo dados da ONU, o Brasil produziu cerca de 1,4 milhão de toneladas de lixo eletrônico em 2014. A estimativa de órgãos do setor é que apenas 4% deste volume eram reciclados e uma parte desconhecida era vendida para recicladores localizados na China, Malásia, Paquistão e outros países.
Os resíduos eletrônicos tem forte impacto no meio ambiente. Se não forem devidamente dispostos, podem contaminar o solo e o lençol freático com produtos químicos e metais pesados. Mesmo assim, a reuso ou a reciclagem destes materiais ainda é bastante limitada. Foi só recentemente, com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010 e que começa a ser definitivamente implantada a partir de 2018, que os resíduos de TI receberam atenção especial. Assim, o setor de informática apresentou proposta de implantar projetos de logística reversa ao Ministério do Meio Ambiente, a exemplo de vários outros setores da indústria (indústria papeleira, indústria de bebidas, etc). Os projetos de logística reversa estão em fase de implantação e envolvem todos os fabricantes e importadores de produtos de informática.
No entanto, ainda é reduzido o número de locais onde se faz a reciclagem de IT. Como ainda não existe a obrigatoriedade da lei, grande parte da população ainda não adquiriu o costume de reciclar seus equipamentos. Na maior parte das vezes, os equipamentos acabam sendo depositados em aterros sanitários ou lixões; estes últimos simples depósitos de resíduos, sem qualquer tipo de controle técnico.

A TI Verde, além da reciclagem, também inclui os conceitos de eficiência energética, ou seja, o desenvolvimento de equipamentos com menos consumo de energia, o reuso e a reciclagem de materiais e o desenvolvimento de processos produtivos e materiais menos poluentes, entre outros. A TI Verde abrange todo o ciclo de vida dos produtos de informática, desde a extração das matérias primas - petróleo e minerais - até o descarte dos equipamentos usado. Os grandes produtores de TI nos Estados Unidos, Japão e Europa, estão preocupados em diminuir o impacto ambiental dos seus produtos durante todo o ciclo de produção e consumo. O grande indutor deste processo no Brasil seria a efetiva implantação da PNRS, fazendo com que fabricantes, comerciantes e consumidores sejam obrigados a adotar práticas mais sustentáveis.
(Imagens: pinturas de Liu Maoshan)

Percepções

sábado, 13 de maio de 2017

Percepções

Nossas percepções e ideias, incluindo a Ciência e nossa vida cotidiana, não são mais do que generalizações sobre uma realidade que intuímos, mas que foge definitivamente à nossa apreensão.

A cultura é uma sofisticada elaboração intelectual sobre nossa percepção do mundo.

Conclusão: pouco sabemos do “que é” e nos atemos apenas àquela pequena visão parcial, que temos através de nossa percepção e dos instrumentos desta.

Nova política industrial para montadoras

sábado, 6 de maio de 2017
"Grande é aquele que sobrepuja o temível. Sublime é aquele que, mesmo sucumbindo, não teme".  Friedrich Schiller  -  Do sublime ao trágico

Em abril último, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) lançou um novo programa de incentivo à inovação na indústria automobilística, que a partir de janeiro de 2018 deverá substituir o atual INOVAR-Auto. O novo mecanismo, batizado como Rota 2030, prevê, entre outras coisas, novos critérios na cobrança do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de veículos.  
O INOVAR-Auto, vigente entre janeiro de 2013 e dezembro de 2017, havia sido criado, principalmente, para defender a cadeia produtiva nacional dos carros importados chineses. Entre outros aspectos, o programa introduzia um adicional no IPI incidente sobre veículos, que seria descontado caso fossem utilizados componentes nacionais na montagem do automóvel. Caracterizado como barreira comercial, o INOVAR-Auto foi condenado pela Organização Mundial do Comércio.
O programa também previa incentivos tributários para empresas que fizessem mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), aumentassem os gastos em engenharia, tecnologia básica e capacitação de fornecedores. No entanto, ainda são bastante esparsas e limitadas as informações sobre os resultados efetivos do INOVAR-Auto. Em consulta ao site do "Sistema de Acompanhamento do INOVAR-Auto", não coseguimos obter qualquer informação preliminar sobre o andamento e os atuais resultados do programa. No site do Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), (http://www.mdic.gov.br/competitividade-industrial/principais-acoes-de-desenvolvimento-industrial/brasil-produtivo/acordos-internacionais-3), na página referente ao programa, a aba "Avaliação do Programa INOVAR-Auto" também não consta qualquer tipo de informação. Mesmo assim, o governo afirma que com o programa foram realizados investimentos de R$ 13 bilhões em P&D no setor automobilístico.
Vale ressaltar que o programa pegou a indústria montadora de veículos do contrapé da crise econômica. A cadeia produtiva deste setor da economia é responsável por cerca de 22% do PIB industrial brasileiro, mas desde 2012 amarga uma queda de 42% na produção de veículos, teve que demitir cerca de 35,9 mil trabalhadores e opera com uma ociosidade de mais de 50% de seu parque produtivo.
A nova política industrial para as montadoras, a ser lançada através do programa Rota 2030, estabelecerá metas mais ambiciosas para a indústria, segundo declarações do Mdic. Os investimentos em P&D deverão ser dirigidos para segmentos específicos, como o da eletrônica embarcada, onde o Brasil não tem fabricantes locais. Também será estimulada a vinda de novos fornecedores, a fim de cobrir áreas nas quais a indústria brasileira ainda tem lacunas tecnológicas.

Uma das mais importantes providências do Rota 2030 é a federalização da inspeção veicular, tarefa que atualmente vinha sendo desempenhada - em pouquíssimos lugares - pelos governos estaduais e municipais. Seguindo aquele velho princípio de administração, que diz que só se controla o que se mede, a providência é mais que urgente. O Brasil tem hoje uma frota de mais de 51 milhões de veículos, com idade média de oito anos. Apesar de não ser um item significativo no cômputo geral das emissões de gases do país, as emissões veiculares contribuem significativamente para piorar a qualidade do ar nas áreas metropolitanas, indiretamente causando milhares de mortes a cada ano.
(Imagens: pinturas de Lesser Ury)

Vida eterna, prazer eterno

sábado, 29 de abril de 2017

O que será este impulso, a vontade inconsciente que todo ser vivo tem de sobreviver? E no ser humano, uma vontade de sobreviver eternamente?

No caso de nós humanos, pressupõem-se que esta sobrevivência seja de modo positivo, ou seja, que traga ao indivíduo uma situação prazerosa por longo tempo - o máximo possível.

Mas, e quando não é assim? Não há casos em que indivíduos, dotados de todas as suas faculdades, não têm mais vontade de viver, por causa de profundo desconforto provocado, por exemplo, por uma doença? Há casos como esses relatados na literatura, em filmes, e muitos conhecemos situações como esta na vida real.

Assim, há situações nas quais nem todos os humanos tem vontade de viver/sobreviver - pelo menos em condições ditas terrenas - eternamente. Quando chega a dor provocada pela doença de qualquer tipo, a vontade de viver se reduz.

Poderia se admitir que a maior parte das pessoas gostaria de viver muito/eternamente, se as condições prazerosos de que gozam no momento fossem mantidas. Isto quer dizer que a maior parte das pessoas não quer simplesmente "existir" eternamente; quer, em outras palavras, eternizar sua situação de prazer.

Mesmo se no momento não vivem em circunstâncias boas, agradáveis, prazerosas, esperam que no além (no Paraíso, Plano Astral, ou outra denominação qualquer) possam "viver olhando a face de Deus" (alguém sabe exatamente o que isso significa?), "encontrar os entes queridos" (esquecem das brigas, dos ressentimentos).

O anseio, a sede pela vida eterna é principalmente a vontade de eternizar a fruição dos prazeres da vida terrena, sejam quais forem (intelectuais, sensoriais, emocionais, etc.).
Não se pensa, por exemplo, como esta situação aparentemente prazerosa - pelo menos sob a perspectiva daqui do "mundo terreno" - será por toda a eternidade.

Não é por outra razão que existem relatos, histórias e anedotas de quanto seria tedioso o Paraíso. Por isso, muitas religiões, como o hinduísmo e o budismo (principalmente em suas versões populares) e correntes de pensamento religioso, como os espíritas kardecistas, fazem da vida além-túmulo uma atividade agitada e variada, com toda sorte de peripécias. Encarnações diversas (passagens por muitas vidas), inclusive no reino animal e no reino das divindades (no caso das religiões orientais), encontro com seres de outros planetas, etc.

Enquanto isso, as religiões monoteístas (qual seria a relação entre um forte monoteísmo e a falta da metempsicose?) não têm muitas imagens e ideias sobre o além. Os relatos sobre o mundo post mortem são raros e as poucas histórias existentes são baseadas em alegorias e lendas tecidas sobre a vida de santos e pessoas admiradas como extraordinárias

Concluindo, temos que a "vontade de viver eternamente", dada por muitos como fundamento de que tal vida eterna deve existir, não é nada mais que uma vontade de fruir prazer por um longo tempo - já que não sabemos o que é eternidade.

Aqui ainda não levantamos a questão de como seria a nossa personalidade nesse mundo por vir. Se já aqui, no curto espaço de tempo da vida humana, notamos alterações em nossas personalidades - algumas para melhor e outras para pior -, o que dizer das mudanças que podem ocorrer durante uma "eternidade"? Isso sem mencionar - ou perguntar - o que realmente somos; o consciente, o inconsciente, os impulsos? 

Somos o resultado desta constante interação entre nossa constituição genética, nossa herança cultural e nossa capacidade (inata, mas nem sempre consciente) de  fazer interagir estas heranças. 

Então, admitindo de que existe qualquer tipo de sobrevivência depois da morte, o que de nós vai para o "além"?

(Imagens: Cenas da Divina Comédia - gravuras de Gustave Doré) 

Crise econômica, desemprego e meio ambiente

sábado, 22 de abril de 2017
"Governar é, primeiro que tudo, saber o que se quer, a razão por que se quer, as consequências do que se quer."  -  Rui Barbosa  -  Obras completas 

Há vinte ou trinta anos, quando o ritmo de desflorestamento na Amazônia era maior do que hoje, os desmatamentos diminuíam toda vez que a economia entrava em crise. Decrescia o consumo de produtos, minguavam os investimentos em atividades agropecuárias, fazendo com que parte da floresta fosse poupada por mais uma temporada. Nos períodos de pouca atividade econômica diminui o consumo, a produção e a consequente geração de resíduos, tanto industriais quanto domésticos. Menos insumos e matérias primas são utilizados, o que reduz a pressão sobre os recursos naturais. Quando a crise persiste e não ocorre a recuperação econômica de setores, atividades ou regiões, vem a decadência e o abandono da infraestrutura, como ocorreu por exemplo com a Fordlândia, no Pará, as cidades abandonadas de mineradores na Namíbia e as regiões rurais do estado da Virgínia, nos Estados Unidos.
Uma das consequências da crise econômica, o desemprego, também pode ser o indutor de danos ambientais, com consequência consideráveis. No Brasil ainda temos poucas análises deste tipo de situação, mas basta percorrer a web para encontrar artigos que discutem as consequências ambientais do desemprego, sob diversos aspectos. Queda na compra de produtos ambientalmente corretos (geralmente mais caros), a suspensão de políticas de taxação de produtos poluentes, ou a diminuição de investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), são consequências do desemprego, discutidas na Europa e nos Estados Unidos. Um assunto que preocupa especialistas americanos, por exemplo, é que com o rareamento de postos de trabalho, pessoas são obrigadas a aceitarem empregos longe de suas casas, provocando aumento nos deslocamentos de veículos, ampliando as emissões de gases. A mesma situação certamente ocorre nas grandes metrópoles brasileiras, mas dada a pouca disponibilidade de dados e informações, este fato passa despercebido, ignorado no meio de tantos impactos ambientais maiores.
Há outros fatos, mais evidentes, que demonstram o efeito negativo da crise econômica e do desemprego sobre o meio ambiente. Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto através do qual voltará a dar incentivos à exploração do carvão, com o objetivo de gerar mais empregos neste setor. A mineração de carvão já passava por uma crise de empregos há alguns anos, devido à automação de processos e a queda no consumo - carvão vinha sendo substituído por gás natural. A medida, criticada por ambientalistas, também pretende liberar novas áreas para exploração do carvão. Assim, para reabrir alguns milhares de postos de trabalho e beneficiar um setor em crise, o presidente Trump aumentará consideravelmente as emissões de gases de seu país.

No Brasil a crise econômica e o desemprego sempre foram usados como argumentos para diminuir o rigor na análise de projetos, sob aspecto ambiental. Assim, a construção de grandes obras de infraestrutura, de grande impacto ambiental, é justificada, segundo a propaganda oficial, por gerar empregos e desenvolvimento. Isto ocorre desde a construção da rodovia Transamazônica, na década de 1970, até as recentes hidrelétricas na Amazônia - além de outros projetos em fase de análise, como a termelétrica na cidade de Peruíbe, SP. O argumento é repetido exaustivamente pela imprensa, pelos empresários e por políticos, sendo aceito por parte da população. Os que exigem mais rigor ambiental, são considerados os inimigos do progresso. A qualidade de vida, a preservação do meio ambiente, são assim sacrificadas para objetivos imediatos; a criação de empregos. Estes postos de trabalho, todavia, geralmente são de baixa remuneração e em poucos anos provavelmente serão substituídos por máquinas que, a baixo custo, executarão o mesmo trabalho. Teremos então a pior situação possível: sem empregos e com o meio ambiente degradado.
(Imagens: pinturas de Grant Wood)

Gestão de resíduos, qual o futuro?

sábado, 15 de abril de 2017
"Este mundo é um imenso tonel de marmelada"  -  Machado de Assis  - O Dicionário

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é o passo inicial que o Brasil precisa dar para gerir seus resíduos de forma moderna. A lei, que deveria ter entrado em vigor a partir de agosto de 2014, teve sua validade prorrogada para 2018 em diante. Se o Congresso não resolver fazer outra caridade com o chapéu alheio, as capitais e os municípios de regiões metropolitanas terão prazo até 31 de julho de 2018 para substituírem seus lixões por aterros sanitários devidamente aprovados. Os municípios de fronteira e os que tinham mais de 100 mil habitantes segundo o censo de 2010, terão prazo até julho de 2019 para prepararem seus aterros. As cidades com 50 a 100 mil habitantes, terão prazo até julho de 2020 para se prepararem. Por último, os municípios com menos de 50 mil habitantes (base 2010), que terão prazo final para construírem seus aterros até 31 de julho de 2021. Com essa regra, a maior parte dos municípios brasileiros (95%) terá prazo até 2020 - coincidindo com o último ano do mandato dos atuais prefeitos - para colocar em prática projetos de coleta seletiva, organizarem as partes envolvidas e construírem aterros sanitários.  
A lei foi aprovada durante o governo do presidente Lula, quando a economia brasileira estava em plena expansão e não faltavam recursos para projetos de infraestrutura. Agora, em meio à crise econômica e à falta de caixa para gerir a máquina pública, os municípios se veem forçados a implantar um política para a qual a maioria não está preparada. No estado de São Paulo, onde a PNRS deveria ter avançado consideravelmente, de cada quatro cidades uma tem lixão a céu aberto. A pesquisa, executada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) em 2016, pesquisou 163 municípios do estado, dos quais apenas 51,54% criaram planos de gestão integrada de resíduos. Dados da pesquisa do TCE foram publicados pela jornalista Sofia Jucon, na revista Meio Ambiente Industrial & Sustentabilidade de março/abril de 2017. Ainda segundo o estudo, apenas 11,73% dos municípios que destinam seus resíduos corretamente em aterros fazem reciclagem; 1,23% promove alguma reutilização e 2,47% se preocupam com a compostagem. Uma parte considerável dos municípios analisados ainda não fez o seu Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS), instrumento elementar para que a cidade possa atender a PNRS.
Mesmo com a melhoria da situação econômica do país, é pouco provável que a maior parte das cidades tenha recursos para adequar-se à política. As municipalidades precisarão criar "taxas de lixo", pagas por todos os usuários do sistema municipal de coleta, e instituir eficientes processos de reuso, reciclagem e compostagem, para diminuir o volume de refugo destinado ao aterro. O maior gargalo de todo o processo, segundo um especialista, está principalmente no fato de na administração pública não existir planejamento para desenvolver e implantar estes planos.

A Brasil não tem mais como prorrogar o problema da gestão dos resíduos. Na maior parte dos municípios, os aterros estão com sua capacidade quase esgotada. A aprovação de novos aterros é processo prolongado e muitas vezes as áreas municipais não comportam a construção de novos depósitos. A incineração do lixo é solução a ser analisada sob diversos aspectos; tais equipamentos são caros, têm diversos impactos ambientais e demandam grande volumes de lixo.
(Imagens: pinturas indianas)

Kropotkin (e Hume) e as leis da natureza

sábado, 8 de abril de 2017

Kropotkin (e Hume) e as leis da natureza

Texto interessante de Kropotkin (1842-1921) sobre o anarquismo. Em determinado ponto o autor diz que não existem "leis da natureza". Trata-se, segundo ele, do fato de que a suposta lei toma aspecto de causalidade: "Se tal fenômeno é produzido sob certas condições, outro fenômeno necessariamente se seguirá. Não existe uma lei colocada fora do fenômeno: todo fenômeno governa aquele que o segue, não há lei."

A questão das "leis da natureza", de certa forma já foi analisada pelo filósofo David Hume (1711-1776), que coloca em discussão até a lei de causalidade. Hume se pergunta se a repetição constante de sequências de acontecimentos pode ser vista como uma regra invariável da natureza, uma "lei", ou se é apenas uma coincidência que sempre se repete. O filósofo inglês quer com isso mostrar que nossa interpretação da natureza é uma generalização.

Fatos ocorrem na natureza, quando determinadas condições são dadas. São, em outras palavras "acontecimentos que ocorrem, invariavelmente, quando determinadas condições são dadas no início da sequência de acontecimentos que estamos analisando".

Por exemplo, se damos início a um "acontecimento observável" impulsionando uma esfera que estava em repouso sobre uma mesa. Dependendo da aceleração que dermos à esfera e do tamanho da mesa, aquela se deslocará até cair no chão, rolar e perder o impulso, parando.

Podemos analisar esta sequência de acontecimentos como sendo uma demonstração da lei da causalidade. No entanto, nestas dadas condições a causalidade ocorre de determinada maneira, que podemos chamar de lei da física (envolvendo aceleração, atrito, gravidade, etc).

A  "lei" efetivamente não está colocada fora do fenômeno; ela não existe por si só. A lei da natureza é apenas um acontecimento que destacamos do mundo físico, e que invariavelmente ocorre, quando certas condições são dadas. Algo como "Se P => S". Como disse Kropotkin "não existe lei colocada fora do fenômeno".
(Imagens: pinturas de George Bellow)

EUA retrocedem no combate às mudanças do clima

sábado, 1 de abril de 2017
"Uma coisa está clara - há indícios cada vez maiores de que o lugar de onde vieram nossos antepassados, como eles se adaptaram para lidar com o meio ambiente e onde vivemos hoje em dia, tudo se combina para ter um impacto significativo em nossa saúde."  -  Dr. Sharon Moalem e Jonathan Prince  -  A sobrevivência dos mais doentes

As mudanças climáticas são fato reconhecido pela maioria dos cientistas. O fenômeno é em grande parte causado pela emissões de gases, relacionados com as atividades econômicas. Recentemente, cientistas chegaram à conclusão de que as grandes extinções de espécies do período geológico Permiano, há 250 milhões de anos, foram causadas principalmente pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. A temperatura média da Terra aumentou em vários graus, dando origem a uma sequência de acontecimentos, que provocaram o desaparecimento de 95% de todas as espécies marinhas e de 70% dos animais terrestres.
Estes indícios, no entanto, parecem não preocupar muito o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Este, como afirmou que faria durante a campanha eleitoral, recentemente assinou uma ordem executiva, que indica uma mudança nas diversas medidas de combate ao aquecimento global, implantadas pelo antecessor de Trump, Barak Obama. Ainda na época eleitoral, o então candidato Trump havia declarado em entrevista que as mudanças climáticas seriam uma farsa, inventadas pelo governo chinês para frear o desenvolvimentos dos Estados Unidos.
Durante as reuniões do Acordo de Paris, o congresso climático mundial organizado pela ONU em 2015, os Estados Unidos haviam assumido o compromisso de cortar suas emissões de gases de efeito estufa em 26% até 2025, tendo por base os níveis de emissão do ano de 2005. Para alcançar esta redução, o governo Obama criou o Plano de Energia Limpa, que entre outras providências impunha às usinas de energia uma diminuição na emissão de gases. As usinas, cuja maior parte funcionava a carvão, entraram em uma disputa judicial com a agência ambiental federal (EPA), que se estende até hoje.
Ao longo dos últimos anos a indústria do carvão americana vinha perdendo empregos devido à automatização de seus processos. Além disso, muitas termelétricas estavam trocando o carvão pelo gás do xisto, que é menos poluente. O governo Trump, no entanto, planejando atender aos reclames do setor do carvão, vai suspender uma moratória imposta em 2016 pelo presidente Obama, e permitirá a concessão de terras federais para a implantação de novas usinas de carvão. Para beneficiar outros segmentos do setor de energia e combustíveis, Trump deverá rever medidas de redução de emissões de gás metano na exploração de petróleo e gás natural.

Por trás de todas estas ações do atual governo americano, apoiado por parte do Partido Republicano, está a intenção de recuperar empregos. O raciocínio, no entanto, segundo especialistas, é bastante simplista. Sabe-se há algum tempo que a indústria da energia renovável, principalmente a solar e a eólica, geram muito mais empregos do que a cadeia do carvão. Permanece também o fato, de que em determinada época do futuro os Estados Unidos serão definitivamente forçados a reduzir suas emissões, visando cumprir acordos internacionais.
Para atender seus eleitores, mesmo que criando empregos insustentáveis a médio prazo, os EUA podem anular anos de esforço em prol da redução das emissões de gases de efeito estufa. Segundo um cientista climático americano, as medidas adotadas por Trump "são um sinal para outros países de que talvez não devam cumprir os seus compromissos, o que significaria a falha do mundo em ficar fora da zona do perigo climático." (jornal O Globo 28/3).
(Imagens: fotografias de Eugene Atget)

Termelétricas e geração de empregos

sábado, 25 de março de 2017

"Sábio é aquele que não se aflige com o que lhe falta e se satisfaz com o que possui."  -  Demócrito (460 AEC - 370 AEC)

A geração de empregos na implantação de termelétricas a gás natural tem duas fases. O processo é bastante parecido na construção de termelétricas a gás, carvão e óleo. Estes últimos dois combustíveis, no entanto, estão caindo em desuso, porque têm grande impacto ambiental e pela disponibilidade de gás procedente do pré-sal.

Na primeira fase, a da construção, são gerados em média de 800 a 1.500 empregos diretos, dependendo da capacidade de geração do empreendimento. O período de construção pode se estender por um e meio a dois anos e meio. Estes números são bastante parecidos no mundo todo, seja nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Brasil.

A construção é geralmente executada por empresas especializadas em diversas áreas (engenharia, construção, montagens, fornecedores de equipamento, etc.), coordenadas por uma empresa gerente do projeto. Esta pode ser uma empresa só ou um grupo de empresas associadas. Outras vezes a construção e o gerenciamento é feito por uma só empresa.

A mão de obra utilizada por estas empresas é, em grande parte, especializada e formada por profissionais empregados nestas empresas. Pode ocorrer também que a empresa-gerente do projeto ofereça treinamento profissional para trabalhadores da região onde será implantado o projeto. O número destes trabalhadores contratados localmente, no entanto, é reduzido. Esta prática é bastante comum em projetos nos Estados Unidos e em alguns projetos no Brasil.

Para cargos que necessitam de mais conhecimento, neste caso os engenheiros de operação da usina e outros, é oferecido treinamento específico - às vezes na sede do fabricante do equipamento. Para um projeto de termelétrica implantado no Sul do país, por exemplo, os engenheiros da empresa-gerente do projeto receberam treinamento na matriz do fabricante da usina, na China.

Terminada a obra, os 800 a 1.500 trabalhadores são deslocados para outro lugar, onde seu empregador tem um outro projeto em andamento. Alguns destes trabalhadores acabam permanecendo na cidade, onde o projeto foi implantado. Muitas vezes, sem local para morar, acabam se estabelecendo em áreas públicas.

Em sua fase de operação, uma usina termelétrica não demanda grande quantidade de funcionários. Como exemplo podemos considerar o caso de uma usina de 360 MW nos Estados Unidos, que opera com 27 pessoas. Uma outra usina, com capacidade de 900 MW, denominada "Magnolia energy project", na cidade de Ashland, no estado do Mississipi, opera com 25 funcionários. Estes são só dois exemplos do que ocorre nos EUA, país que detêm o maior número de usinas termelétricas. No Brasil, um dos exemplo é o da usina UTE Norte Fluminense, localizada em Macaé, com capacidade de 780 MW, opera com 44 empregados.

Provavelmente este número de empregados não incluei os terceirizados - segurança, limpeza e eventual manutenção - que pode envolver mais 20 a 40 trabalhadores.
Portanto, na melhor das hipóteses uma usina termelétrica pode gerar cerca de 50 empregos diretos (melhor pagos) e mais 50 indiretos. Muito pouco pelo imenso impacto ambiental e social do projeto.

Por outro lado, há que se considerar as obras de infraestrutura e de segurança a serem construídas e mantidas pela cidade, para abrigar um empreendimento desta monta. Hospital com médicos e leitos adicionais para queimados; corpo de bombeiros devidamente equipado para emergências como incêndios e explosões; obras de infraestrutura viária, entre outros. São despesas que terão que ser custeadas pela administração da cidade, em parte com a receita adicional de impostos.

Sob aspecto de geração de empregos, uma termelétrica pode não ser um bom negócio. Mesmo que consideremos os empregos indiretos - eventuais fornecedores de serviços e equipamentos - estes serão muito poucos, já que grande parte é suprido por empresas especializadas.

(Cogita-se a construção de uma termelétrica a gás na cidade de Peruíbe. O impacto sobre a vida do município - cuja qualidade do ar é um dos melhores do mundo - será muito grande)
(Imagem: termelétrica)

A questão da cultura

sábado, 18 de março de 2017

A questão da cultura

A cultura como uma estrutura invisível, mas perceptível que está presente, "fundamenta" uma sociedade. Sociedades mais novas, como a brasileira, devem ter uma estrutura cultural mais "tênue" mais fraca ou menos estruturada, do que, por exemplo, uma cultura indiana ou chinesa.

Nestas, as pessoas convivem em uma "base cultural comum" há mais de dois mil anos. Mas, o que distinguiria uma "base cultural comum" de outras? Seria possível "medir" esta estrutura cultural e identificar-lhe as diferenças entre uma cultura e outra?

Outra questão: como entraria nesta equação a cultura de massa? Até que ponto a globalização tem feito um "mix" de diversas culturas?

Ainda com relação a isso, o que é comum na "cultura global"? O que cada cultura tomou para si da cultura global, incorporando-a à sua? E esta "cultura transplantada" ainda permanece global ou se tornou caracteristicamente local?

Em suma, o que é essa "teia", esse meio que tudo permeia chamado de cultura, no qual nos movemos ou que se move em nós, se considerarmos a teoria dos memes?
(Imagens: tabuinhas cuneiformes da Babilônia)

Newsletter março/abril/maio 2017

sábado, 11 de março de 2017

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br)

Estamos na quarta-feira de Cinzas e muitos, seguindo a velha tradição brasileira, dizem que a partir de agora o ano de 2017 vai começar. Aquele mesmo ano que em final de 2016 muitos queriam pular.

Na macroeconomia aos poucos o país começa a tomar uma direção. No primeiro mês do ano a inflação já caiu para índices abaixo da meta, os juros também começam a diminuir e algumas reformas planejadas pelo governo começam a avançar. Mesmo assim, o ritmo ainda é muito lento, nada que possa trazer alento para os mais de 12 milhões de desempregados (oficiais) do país. Apesar das declarações do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, de que ao final de 2017 a economia estaria crescendo a 2%, o Brasil ainda tem muitos obstáculos pela frente.

Na política avançam as investigações da Lava Jato e a publicação dos nomes dos políticos citados nos depoimentos da investigação é esperada com grande expectativa. O Supremo Tribunal Federal ainda continua ocupando um espaço excessivo na política nacional, o que tem desagradado o Legislativo e diversos segmentos da sociedade civil.

No setor do meio ambiente começamos o ano com notícias desalentadoras. Pressionado por parlamentares da região amazônica que defendem interesses do agronegócio, Temer deve apresentar proposta ao Congresso que reduzirá as áreas das Unidades de Conservação (UCs) já demarcadas na região. Segundo cálculos haverá uma redução de 2,7 para 1,7 milhão de hectares da área sob proteção, uma redução de cerca de 65%. Ao mesmo tempo, o governo noticia através do Ministério do Meio Ambiente que pretende aumentar o número de UCs federais no país, que atualmente totalizam 327 unidades.

A novela do acidente com a barragem em Mariana continua sem desfecho aceitável. A empresa Samarco havia sido condenada a depositar R$ 1,2 bilhão na Justiça, como parte do pagamento pelos danos causados pelo rompimento de sua barragem em 2015. Agora, em janeiro, a justiça federal suspendeu o pagamento por tempo indeterminado. Depois de deixar de pagar por três vezes valores devidos determinados pela Justiça, a empresa é premiada com a prorrogação da multa por prazo indeterminado. As idas e voltas do processo, sem apresentar qualquer decisão definitiva, faz com que também neste caso a Justiça acabe perdendo a credibilidade frente à população local e a opinião pública em geral. Mais uma vez está se dando mostra de que no Brasil qualquer crime acaba compensando.

A novidade no setor de saneamento é que há poucos dias o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) publicou seis editais de licitação para contratação de serviços técnicos especializados para a estruturação de projetos de participação privada em projetos de saneamento nos estados do Amapá, Alagoas, Maranhão, Pará, Pernambuco e Sergipe. Segundo o banco, 18 estados manifestaram interesse em estruturarem licitações públicas para projetos de saneamento em seus municípios. Sem recursos para investimento, estados e governo federal - ou até prefeituras - precisam encontrar soluções para definitivamente oferecerem serviços de tratamento de água e de esgoto mais eficientes à população.

Quanto à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) os preparativos, tanto no setor privado quanto no público avançam a passos lentos. Continuam as realizações de seminários, palestras e workshops, que apontam pequenas avanços aqui e ali. O grosso das prefeituras, no entanto, continua deitado em berço esplêndido, não se preocupando com o assunto. Ignoramus.
(Imagem: desenho de Frank Lloyd Wright do museu Guggenheim)

Albert Caraco, filósofo do caos

sábado, 4 de março de 2017
"Eu nasci para mim mesmo entre 1946 e 1948, foi então que abri meus olhos para o mundo, até este momento era cego." Albert Caraco, pensador e escritor


As primeiras três décadas do século XX foram um período de grandes movimentos sociais, econômicos e culturais. Depois da guerra entre a Rússia e o Japão (1905), ocorreu uma série de eventos catastróficos que moldaram a história do século XX (e também do século XXI): a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a Revolução Russa (1917), a quebra da bolsa de Nova York (1929); dando início a uma grave crise econômica que afetou o mundo por vários anos e contribuiu para a ascensão do nazismo (1933).

No campo da ciência, os avanços construíram a base da tecnologia eletrônica dos nossos tempos: a teoria Quântica, criada por Planck em 1900 e desenvolvida ao longo das primeiras décadas do século XX por outros cientistas; a teoria da Relatividade (1915) por Einstein e o Princípio da Indeterminação (1927) por Heisenberg. 

Nas artes a criatividade também foi muito grande: Expressionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, Abstracionismo, Dadaísmo e Surrealismo, entre os principais movimentos. Compositores como Schoenberg e Stravinsky revolucionavam a música, enquanto que intelectuais como Husserl, Durkheim, Russel, Heidegger, Tönnies, Scheler, Wittgenstein, Weber, Simmel, Dewey, Pareto, Ortega y Gasset, Whitehead e Sartre, foram alguns dos pensadores que ditavam novos rumos na filosofia e sociologia. 

Um mundo em ebulição. No meio de toda esta agitação cultural e social, ocorria a movimentação de milhões de pessoas das regiões rurais para as cidades. O velho ditado medieval alemão "Stadtluft macht frei nach Jahr und Tag" (O ar da cidade torna livre depois de ano e dia) concretizava-se para aqueles que ainda viviam no campo (as primeiras grande migrações para as cidades ocorreram na segunda metade do século XIX) e queriam participar da vida agitada das cidades. Ao mesmo tempo, grandes contingentes humanos, sem oportunidades nas cidades afetadas pela crise econômica, emigravam do continente europeu para as Américas, principalmente os Estados Unidos. 

Foi nesse ambiente que nasceu Albert Caraco. Filho de José Caraco e Elisa Schwarz, judeus sefarditas, Albert veio ao mundo em Istambul, em 8 de julho de 1919. A família Caraco viajou muito pelo Europa, passando por Viena, Praga e Berlim, para se estabelecer em Paris. Foi lá que Albert se graduou na École des Hautes Études Commerciales (Escola de Altos Estudos Comerciais) em 1939. Pressentindo o perigo do nazismo se alastrando na Europa, José Caraco toma a família e deixa Paris em direção à América do Sul, passando por Honduras, Brasil (Rio de Janeiro) e Argentina, estabelecendo-se no Uruguai. Lá a família se converte ao catolicismo e passa a morar em Montevidéu.

A permanência em tantos países durante sua infância e juventude fez com que Albert Caraco falasse e escrevesse alemão, francês, inglês e espanhol, o que lhe proporcionou acesso a grande parte da produção cultural desta línguas. Assim, ainda morando em Montevidéu, Albert Caraco publica peças de teatro e coleções de poemas. Em 1946, terminada a Guerra, a família volta para Paris, onde Albert Caraco permanecerá até o final da vida. 

Em Paris Caraco não exercia nenhuma atividade profissional, vivendo dos recursos da família. Também não se tem notícias de qualquer ligação sentimental que tivesse tido ao longo de sua vida. Era dedicado aos pais, principalmente a mãe, que chamava de "Señora Madre" em seus escritos. Levava vida regrada, dedicando seis horas por dia aos seus escritos - sua colossal obra até hoje não foi editada completamente. Depois de voltar a Paris, Caraco abriu mão do catolicismo ao qual havia se convertido junto com seus pais e voltou ao judaísmo. Em seus escritos declara-se ateu, nutrindo, no entanto, uma admiração pelo misticismo, a exemplo de seu contemporâneo em Paris, o filósofo romeno Emil M. Cioran (1911-1995). 

O sofrimento e a morte por câncer de sua mãe, "Señora Madre", o marcou profundamente. Tanto, que escreveu um livro, Post Mortem, descrevendo o desenvolvimento da doença e o efeito que o processo causava sobre ele. Mais tarde, no dia 7 de setembro de 1971, alguns dias depois da morte de seu pai, Caraco aos 52 anos dava cabo de sua própria vida, como já havia comunicado anteriormente a um editor.

Albert Caraco não foi um filósofo acadêmico, e talvez seja esta a grande característica de seu pensamento. O conteúdo único de suas obras, suas análises e críticas, caracterizam um pensamento filosófico peculiar. A maior parte da obra mais conhecida de Caraco foi publicada após sua morte. Apesar de ter produzido material bastante variado, formado por peças de teatro, poesias, ensaios filosóficos, meditações sobre arte e sociedade, diários e artigos diversos, Caraco sempre continuou ignorado pelo grande público. Mesmo na França, país onde lançou parte de seu trabalho, o autor é pouco conhecido, até mesmo no meio universitário. 

Pessimista e acusado de misógino e racista, Caraco reuniu em seus textos todas as contradições de sua época. Criticava um mundo que caminhava para a superpopulação e a destruição dos recursos naturais, guiado por governantes cegos e cínicos, que se utilizavam de falsas ideias para iludir as massas. Com relação a essas, criticava a situação do homem comum, atomizado e ao mesmo tempo massificado, tornado engrenagem de uma máquina imensa, da qual a finalidade lhe é desconhecida.

Partindo de pontos comuns às filosofias de Nietzsche (1844-1900), Schopenhauer (1788-1860) e Mainländer (1841-1876), entre outros, Caraco desenvolveu uma filosofia da indiferença, partindo dos temas clássicos do niilismo europeu. Um dos aspectos de sua obra é a análise e crítica de toda a hipótese explicativa das origens do universo; caos, absoluta indiferença, nada. Caraco analisou as consequências deste "nada" na sociedade, na arte, na política, na condição humana. Recusava as explicações religiosas - apesar de respeitar a espiritualidade -, qualquer forma de transcendência, toda forma de ordem. Estava preocupado com as catástrofes, a morte, a corrupção e a decadência e não tinha nenhum tipo de fé no progresso e na modernidade, ao contrário. Caraco sempre foi um grande demolidor destes mitos. Devido à estranheza de suas ideias, somente uma pequena parte das obras do pensador foram traduzidas para outras línguas, além do francês.

O pessimismo de Caraco fez com que algumas vezes fosse chamado de "Heresias de Cirene moderno". Heresias, pensador nascido na cidade de Cirene no século III AEC, argumentava que a felicidade é impossível de alcançar e que o objetivo da vida era evitar dor e tristeza. Para o filósofo, valores convencionais como riqueza, pobreza, liberdade e escravidão, são todos indiferentes e não produzem mais prazer do que dor. Heresias, provavelmente influenciado por missionários budistas que conheceu ao longo de sua vida, provocou vários suicídios por causa de sua doutrina, tendo sido proibido de ensinar.

Em seus escritos Caraco externou várias vezes a ideia de que nada no mundo merece ser salvo; nem a arte que degenerou em produto de consumo e embrutecimento das massas; nem a religião que além de fazer o mesmo também instrumentaliza as massas; nem a política e a economia, que levaram milhões de pessoas à morte e à miséria. 

As obras mais famosas de Caraco são Bréviaire du chaos (lançado postumamente em 1982) e Post mortem (lançado em 1968). Pelo que pudemos pesquisar, são estas as únicas obras do autor traduzidas para outras línguas; a primeira para o espanhol e o turco e a segunda somente para o espanhol. Outras obras escritas por Caraco e já lançadas, incluem:

1941. Inès de Castro (suivi de) Les martyrs de Cordoue. Rio de Janeiro : Livraria Geral Franco Brasileira. 173 p. (Deux tragédies classiques. La couverture porte : Editions Bel-Air).
Curiosamente, este livro consta como tendo sido lançado na cidade de Rio de Janeiro. Não conseguimos encontrar informações sobre qual foi o período de permanência da família Caraco na cidade. 

1942. Le cycle de Jeanne d’Arc (suivi d’un choix de poèmes). Buenos Aires : Argentina Aristides Quillet. (Plaquette illustrée par l’auteur).

1942. Le mystère d’Eusèbe, illustré par l’auteur. Buenos Aires : Argentina Arístides Quillet. 187 p.

1942/43. Contes. Retour de Xerxès. Buenos Aires : Argentina Aristides Quillet. 303 p. (Colophon daté 1942. Contes symboliques, fantastiques et philosophiques illustrés par l’auteur).

1949. Le livre des combats de l’âme. Paris : E de Boccard. 235 p. (Recueil de poèmes mystiques. Prix Edgar Poe, Paris).

1952. L’école des intransigeants : Rébellion pour l’ordre. Paris : Nagel. 289 ou 291 p. (Maximes morales).

1952/53. Le désirable et le sublime : phénoménologie de l’Apocalypse. Neuchâtel : A la Baconnière. 395 p. (Somme philosophique. Copyright 1952, imprimé en 1953). Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1978 ou 1979, 395 p.

1957. Foi, valeur et besoin. Paris : E de Boccard. 241 p.

1957. Apologie d’Israël, 1 : Plaidoyer pour les indéfendables. Paris : Fischbacher. 202 ou 203 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 2004, avec La marche à travers les ruines et Colonne d’ombre, colonne de lumière, 323 p.

1957. Apologie d’Israël, 2 : La marche à travers les ruines. Paris : Fischbacher. 205 ou 211 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 2004, avec Plaidoyer pour les indéfendables et Colonne d’ombre, colonne de lumière, 323 p.

1963. Huit essais sur le mal. Neuchâtel : A la Baconnière. 370 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1976 ou 1978, 370 p.

1965. L’art et les nations : la physique des styles. Neuchâtel : Ed. de la Baconnière. 333 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1979, 333 p.

1966. Le tombeau de l’histoire. Neuchâtel : La Baconnière. 605 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1976, 604 p.

1967. Le galant homme : un livre de civilité. Neuchâtel : A la Baconnière. 343 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1979, 341 p.

1967. Les races et les classes. Lausanne : L’Age d’Homme. 413 p.

1968. Post mortem. Lausanne : L’Age d’Homme. 119 p. (La Merveilleuse Collection, 13). Rééd. sous le titre Madame Mère est morte, (Paris) : Lettres Vives, 1983 ou 1984, xiii-110 p. (Coll. Entre 4 yeux, préface Michel Camus). Repris sous le titre original en fin de volume du Semainier de l’agonie, 1985.

1968. La luxure et la mort : relations de l’ordre et de la sexualité. Lausanne : L’Age d’Homme. 257 p.

1970. L’ordre et le sexe. Lausanne : L’Age d’Homme. 272 p. (Préfaces en anglais, allemand, espagnol et français).

1974. Obéissance ou servitude. Lausanne : L’Age d’Homme. 403 p.

1975. Ma confession. Lausanne : L’Age d’Homme. 260 p.

1975. La France baroque. Lausanne : L’Age d’Homme. 245 p.

1975. Simples remarques sur la France. Lausanne : L’Age d’Homme. 168 p.

1976. L’homme de lettres : un art d’écrire. Lausanne : L’Age d’Homme. 293 p.

1982. Bréviaire du chaos. Lausanne : L’Age d’Homme. 126 p. (Collection Le bruit du temps). Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1999, 126 p. (coll. Amers, 1)

1982. Essai sur les limites de l’esprit humain. Lausanne : L’Age d’Homme. 257 p.

1983. Supplément à la « Psychopathia sexualis ». Lausanne : L’Age d’Homme. 174 p. (Collection Le bruit du temps)

1984. Ecrits sur la religion. Lausanne : L’Age d’Homme. 346 p.

1985. Le semainier de l’agonie : le semainier de 1963, suivi de Post mortem. Lausanne : L’Age d’Homme. 329 p.

1994. Abécédaire de Martin-Bâton. Lausanne : L’Age d’Homme. 156 p. (Coll. La Fronde).

1994. Semainier de l’incertitude. (Lausanne) : L’Age d’Homme. 202 p.

2001. Semainier de l’an 1969 : du 10 mars au 27 juillet. Lausanne : L’Age d’Homme. 157 p.

2004. Apologie d’Israël. Lausanne : L’Age d’Homme. 323 p. (Contient une réédition de Plaidoyer pour les indéfendables et de La marche à travers les ruines (1957) et la première édition de Colonne d’ombre, colonne de lumière).

Abaixo, algumas citações do filósofo, extraídas de algumas de sua publicações:

"Quanto mais eu fico velho, tanto mais a Gnosis fala à minha razão. O mundo não é ordenado por uma Providência, é intrinsecamente mau, profundamente obscuro, e a Criação é o sonho de um intelecto cego ou o jogo de um Princípio sem moral." (Ma Confession)

"...O Nada ou a História; temos que escolher entre duas alternativas, mas a segunda é muito frequentemente uma agonia perpétua e o Nada parece preferível... A Graça parece estar excluída, mas apesar da lógica, não é impossível que nos aconteça a Graça cair em uma linha vertical, abrindo um buraco entre nós e o atemporal, nós que estamos à mercê do rio no qual flutuamos." (Le Tombeau de l' Histoire)

"As cidades que habitamos são as escolas da morte, porque são desumanas. Cada uma se converteu em centro de boato e mau cheiro, cada uma convertida em caos de edifícios, onde nos empilhamos em milhões perdendo nossas razões de viver. Infelizes sem remédio, nos sentimos, querendo ou não, expostos aos labirintos do absurdo, do qual não sairemos a não ser mortos, porque nosso destino é sempre o de nos multiplicarmos, com o único objetivo de parecermos inumeráveis. A cada volta da roda, as cidades que habitamos avançam imperceptivelmente umas contra as outras, aspirando a confundirem-se. É uma mancha em direção ao caos absoluto, no ruído e no mau cheiro." (Breviario del caos)

"Quando quiserem saber quais foram nossos verdadeiros deuses, deverão julgar-nos segundo nossas obras e nunca segundo nossos princípios. Então não nos envergonharemos em responder e dizer que não nos permitiram dizer e nem sequer pensar: "Adorávamos a loucura e a morte". Na realidade, já não adoramos outra coisa, no entanto não podemos reconhecê-lo, porque a loucura e a morte são o fim das religiões reveladas, e estas religiões as contêm em potência, a começar pela cristã. Colocamos a morte e a loucura sobre os altares..." (Breviario del caos)

"Nossos intelectuais não sabem mais do que representar e nossos religiosos não sabem mais do que mentir. Nenhum sonha com repensar o mundo, nenhum nos propõe formas de examinar as evidências. Todos querem fazer carreira e é admirável a capacidade com a qual se utilizam uns dos outros, sem jamais ferirem as conveniências." (Breviario del caos)

"A catástrofe é necessária, a catástrofe é desejável, a catástrofe é legítima, a catástrofe é providencial. O mundo não se renova de outra maneira e se o mundo não se renova, deverá desaparecer com os homens que o infectam. Os homens se propagaram sobre o universo como uma lepra e quanto mais se multiplicam, mais o desnaturam. Creem servir aos seus deuses tornando-se mais inumeráveis. Seus comerciantes e sacerdotes aprovam sua fecundidade; uns porque os enriquece, os outros porque se lhes acreditam." (Breviario del caos)

"O mundo que habitamos é duro, frio e sombrio, injusto e metódico. Seus governos são imbecis patéticos ou grandes perversos. Nenhum deles está mais de acordo com esta época, estão superados. Sejam pequenos ou grandes, sua legitimidade parece inconcebível e o poder não é mais que um poder protocolar, um mal menor ao qual nos resignamos." (Breviario del caos)

"Pois vamos morrer com nossas obras e por nossas obras." (Breviario del caos)

"Nossos inimigos são aqueles que nos falam de esperança e nos anunciam um futuro de trabalho e paz, onde nossos problemas se resolverão e nossos desejos se realizarão." (Breviario del caos)

"Quando cada qual tem razão, tudo está perdido, tudo se torna permitido e possível; é a hora trágica por excelência e esta é a nossa." (Breviario del caos)

"Se os homens não esperassem nada, sua sorte não seria a mesma. Se os homens não acreditassem em nada, sua condição talvez mudasse. Assim a esperança e a fé só aumentam seus males, mas fazem felizes os seus amos." (Breviario del caos)

"Me contento com o Deus dos filósofos. Eu mesmo sou uma pessoa e não busco nada fora de mim. Consinto em minha morte eterna e a ideia de salvação me parece um delírio; ser salvo é uma violação metafísica." (Post mortem)


Fontes consultadas:
http://albert-caraco.blogspot.com.br/p/bibliographie.html
http://illusioncity.net/albert-caraco/
http://p2.storage.canalblog.com/25/21/1366039/111029471.pdf
https://archive.org/details/caracoca 
http://albert-caraco.blogspot.com.br/p/bibliographie.html
Caraco, Albert. Post mortem. México, D.F. Editorial Sexto Piso: 2006, 119 p.
Caraco, Albert. Breviario del caos. Madrid. Editorial Sexto Piso: 2004, 128 p.

Para aqueles interessados na obra de Albert Caraco, existe uma versão em PDF do Bréviaire du chaos (em francês) disponível em: (https://ia601403.us.archive.org/2/items/caracoca/caracoca.pdf)

Texto, traduções e adaptações: Ricardo E. Rose
(Imagem: fotografia de Albert Caraco)

Hortas comunitárias

sábado, 25 de fevereiro de 2017
"Ao renunciar à sociedade e à fortuna, encontrei a felicidade, a calma, a saúde, até mesmo a riqueza; e a despeito do provérbio, percebo que aquele que abandona a partida é o que acaba ganhando-a."  -  Chamfort  -  Máximas e pensamentos


A agricultura surgiu com as hortas comunitárias. Desde o período Neolítico, há 12 ou 10 mil anos, a agricultura vem sendo praticada por pequenos grupos humanos; famílias, vizinhos, que se juntavam para o plantio e a colheita. A agricultura em larga escala, na qual um dono (geralmente o Estado, os sacerdotes ou o rei) controlava grandes extensões de terra, surgiu quando se formaram agrupamentos humanos mais populosos. Foi nas grandes extensões de terras aráveis pertencentes à zona de influência das primeiras cidades-Estado da Suméria (região onde hoje é o Iraque e a Síria), do impérios egípcio, da região de Mohenjo-Daro na Índia e no vale do rio Amarelo (Huang He), que a agricultura em larga escala começou a ser praticada.
Muito provavelmente, no entanto, as hortas comunitárias continuaram a subsistir em áreas às vezes concedidas aos agricultores sem terra, para que plantassem produtos para consumo próprio. Este tipo de agricultura também contribuiu para a conservação da diversidade das espécies de plantas, pois certos tipos de grãos e sementes eram desconhecidos ou não eram utilizados pelos grandes agricultores. Por toda a história até os tempos modernos, as hortas comunitárias atenderam parte das necessidades alimentares das populações mais pobres, que dispunham de pouca ou nenhuma terra para plantio.

A industrialização, que ao longo dos últimos duzentos anos provocou a migração de milhões de pessoas do campo para as cidades, foi um dos fatores da disseminação da agricultura comunitária urbana, as hortas urbanas. Premidos pelos altos preços dos alimentos nas épocas de crises econômicas que se sucederam ao longo deste período, os novos moradores das cidades trouxeram consigo alguns dos conhecimentos do campo. No Brasil é significativo que as hortas comunitária começaram a surgir a partir dos anos 1980, associadas aos movimentos de luta pela moradia, movimentos de bairros e outros tipos de ações comunitárias.
Associadas aos movimentos populares da periferia das grandes cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as hortas comunitárias acabaram sendo adotadas também pelos movimentos alternativos e por grupos de classe média - estes morando em bairros centrais mais ricos. Por não necessitar de técnicas de difícil aprendizado e utilizar insumos e ferramentas de custo relativamente baixo, as hortas urbanas tornaram-se uma solução para diversos problemas sociais e de infraestrutura. Muitas comunidades de agricultores urbanos eliminaram transtornos com terrenos baldios, cheios de lixo ou entulho, que eram focos de ratos e insetos e frequentados por desocupados. A horta se transformou em local de encontro de vizinhos, espaço para reuniões e até festas. As plantas e as árvores frutíferas trouxeram de volta várias espécies de pássaros e outros animais, que em vista da falta de áreas verdes haviam abandonado certos bairros das cidades.
Em bairros da periferia, as hortas urbanas voltaram a dar uma nova oportunidade de vida para jovens envolvidos com as drogas e a criminalidade. Em São Paulo e em São Francisco, nos Estados Unidos, a participação nesta atividade está criando um vínculo entre os jovens e suas famílias, mantendo-os afastados das atividades ilícitas. Na cidade de Nova York, por exemplo, existem cerca de 900 hortas comunitárias.
A preocupação com a origem da comida é outro fator de desenvolvimento deste tipo de agricultura, já que a maior parte é feita em bases orgânicas, sem adição de produtos químicos. Um shopping center de São Paulo mantêm uma horta orgânica no telhado de seu prédio, cuidada pelos funcionários do estabelecimento. A adubação da terra é feita com resíduos orgânicos compostados, gerados pelo próprio centro de compras e o resultado do plantio é entregue aos funcionários que participam da iniciativa.    
Atualmente, parte considerável da população urbana dos países pobres e em desenvolvimento pratica a agricultura comunitária urbana. As últimas estatísticas datadas de 2008, davam como 800 milhões o número de agricultores urbanos espalhados por todo o planeta. No Brasil ainda não existem estatísticas mais exatas sobre estes números, o dificulta a implantação de políticas de incentivo mais amplas. O último projeto desenvolvido para este setor foi o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, ligado ao Programa Fome Zero, que no governo Temer não recebeu mais incentivos.
Por suas vantagens em diversas áreas - combate à fome, geração adicional de renda, combate ao crime, fortalecimento da vida social e cultural das comunidades -, além dos aspectos ambientais e de saneamento, as hortas comunitárias precisam ser incentivadas. É importante que cidades iniciem ou retomem antigos programas de disponibilização de áreas para plantio, sementes, ferramentas e treinamento. O contato com a terra e as plantas faz parte da constituição primitiva do homem.
(Imagens: pinturas de Erich Fraaβ)