Diminui o buraco da camada de ozônio

sábado, 20 de agosto de 2016
"Lembro a vocês o fato elementar de que respiramos os resíduos desprezados pela plantas e que as plantas respiram os resíduos desprezados pelos seres humanos."  -  Carl Sagan  -  Variedades da experiência científica

Um fato recente bastante importante, passou quase despercebido do grande público e só foi superficialmente noticiado na mídia. Trata-se da redução do buraco na camada de ozônio da atmosfera da Terra. A notícia é bastante auspiciosa e tem um grande significado para todos aqueles preocupados com o impacto das atividades econômicas sobre a natureza.
A camada de ozônio está situada na estratosfera, região da atmosfera terrestre situada entre 25 e 35 mil metros de altitude, e atua como um filtro que elimina 98% da radiação ultravioleta (UV) que vem do Sol. A UV é responsável pelo bronzeamento da pele, mas em quantidades mais concentradas causa queimaduras, catarata, altera o DNA, podendo causar câncer de pele. A cada ano são descobertos entre 2 e 3 milhões de casos de câncer de pele em todo o mundo e a quantidade vem aumentando também no Brasil. Cientistas fazem uma relação entre o crescimento dos casos desta doença com o aumento do buraco na camada de ozônio.
Os principais destruidores do ozônio presente na atmosfera são os gases CFC (clorofluorcarbonos); compostos presentes em aerossóis e na refrigeração de geladeiras, sistemas de ar condicionado, entre outros. Através da luz solar as moléculas de CFC se quebram, liberando o cloro que passa a reagir com o ozônio, eliminando seu efeito filtrante dos raios UV. Assim, com menor quantidade de ozônio presente nas altas camadas da atmosfera, a radiação chega com mais facilidade ao solo, afetando as moléculas que compõem os seres vivos. Resumidamente, substâncias químicas industriais atuando e destruindo substâncias químicas naturais. Era preciso fazer algo.
Identificado o problema os países assinaram um acordo global em 1989, denominado Protocolo de Montreal, que baniu o uso de substâncias à base de CFC em todo o mundo. Como a cadeia produtiva que utilizava o CFC em seus processos era relativamente reduzida, as ações de governos, ONGs e associações de empresas surtiram efeito com relativa rapidez na eliminação do uso do gás poluente. O efeito desta ação positiva é o que estamos começando a perceber. Estudiosa do problema no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts), Susan Solomon comentou: "A ciência ajudou mostrando o caminho, os diplomatas, os países e a indústria tiveram uma capacidade incrível de traçar uma estratégia para abandonar o uso dessas moléculas, e agora nós de fato estamos vendo que o planeta melhorou. É maravilhoso." (Jornal Folha de São Paulo 3/7/2016).

Apesar de ainda haver uma certa confusão entre o buraco na camada de ozônio e o efeito estufa, trata-se de assuntos diferentes. O fenômeno do efeito estufa, aquecendo a atmosfera terrestre, é muito mais complexo e, infelizmente, não é causado só por algumas substâncias químicas que podem ser substituídas por outras em curto espaço de tempo. O efeito estufa é gerado pelo excesso de substâncias químicas formadas pelo elemento básico da vida, presente em quase tudo: o carbono. O processamento de duas substâncias ricas em carbono, o petróleo e o carvão, forma a base de nossa geração de energia, transportes, indústria e agricultura. Outras moléculas ricas em carbono, o metano e o dióxido de carbono (CO²), são expelidos pela maior parte dos seres vivos. Por isso, descarbonizar a economia mundial e reduzir o efeito estufa será muito mais complexo e demorado - mas pode ser possível.
(Imagens: ruínas da cidade de Éfeso)    

As Olimpíadas e o meio ambiente

sábado, 13 de agosto de 2016
"Religiosidade sem religião - Existe mais mistério no ser de uma simples flor ou de um aleatório grão de areia do que em todas as religiões do mundo."  -  Eduardo Gianetti  -  Trópicos Utópicos

Às vésperas dos Jogos Olímpicos, o governador interino do estado do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decreta estado de calamidade pública, tendo em vista a situação financeira. Foram anunciados cortes em diversos programas sociais que podem atingir 1,4 bilhão de reais - valor insuficiente para reduzir o déficit de 19 bilhões de reais, resultado do descontrole nos gastos públicos e queda na receita dos royalties do petróleo.
A época para a falência financeira do estado é a pior possível, já que a cidade de Rio de Janeiro está às vésperas de sediar o mais importante evento esportivo mundial: os XXXI Jogos Olímpicos.  A Olimpíada deverá ocorrer entre 5 e 21 de agosto de 2016 e são esperados cerca de 480 mil visitantes. Para receber esta afluência a prefeitura, o estado e o governo federal realizaram várias obras de infraestrutura, além de preparar as instalações para a realização dos jogos e a acomodação dos atletas participantes.
Quando a cidade apresentou sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos em 2009, um dossiê estimava os investimentos necessários em 28,8 bilhões de reais, divididos da seguinte maneira: 5,6 bilhões de reais destinados à construção do Parque Olímpico e 23,2 bilhões para obras relacionadas ao transporte público. A mais recente estimativa de custos, de agosto de 2015, alcançou 39,1 bilhões de reais devido, segundo o Comitê Olímpico Brasileiro, ao aumento do número de projetos, compra de equipamentos adicionais e inclusão de obras que não haviam sido previstas de início.  
Apesar do grande volume de obras realizadas, inclusive de saneamento, a poluição das águas é, sem dúvida, o maior problema desta Olimpíada. Constantemente, a imprensa local e internacional tem publicado informações sobre as duvidosas condições de limpeza das águas onde serão realizados esportes aquáticos como remo (Lagoa Rodrigo de Freitas) e vela (área da Baía de Guanabara). Permanece o fato de que grande parte dos rios que deságua na baía de Guanabara ainda recebe grande volume de esgoto doméstico e, em alguns casos, industrial. Com a expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro desde o século XIX, estes rios se transformaram em receptores de efluentes e lixo, que são carregados para dentro da baía. 

Quando do início das obras em 2010, o Comitê Olímpico Brasileiro disse que a baía estaria saneada em até 80% para receber a Olimpíada. No final de 2015 o então governador Pezão informou que o percentual de tratamento dos esgotos, que era de 17%, deveria chegar aos 49% até a realização da Olimpíada. Estimativas mais recentes, segundo o jornal eletrônico "Rio on Watch" (http://rioonwatch.org.br/?p=19084), aumentam este percentual para 65%. Nas últimas semanas algumas obras de saneamento ainda foram entregues, mas o problema de poluição das águas persistirá mesmo durante o evento. A poluição não se limita à lagoa Rodrigo de Freitas e à baía da Guanabara. Na zona Oeste, perto de onde está localizado o Parque dos Atletas, grande parte das lagoas também está comprometida por efluentes domésticos.
A situação do Rio de Janeiro reflete a maneira como o Estado tem tratado a questão do saneamento desde sempre no Brasil. Num evento desta monta, quando aos olhos do mundo o país poderia mostrar uma imagem de comprometimento com o meio ambiente, o que apresentaremos é incapacidade de gestão e descaso com a natureza.
(Imagens: estradas romanas)

Energia eólica avança

sábado, 6 de agosto de 2016
"Política é a arte de pedir votos aos pobres, dinheiro aos ricos e mentir para ambos"  -  Antonio Hermínio de Morais

Apesar da crise econômica, que afeta diversos segmentos da economia brasileira, o setor da energia eólica deverá crescer cerca de 40% em 2016, segundo Associação Brasileira da Energia Eólica (Abeeólica). E para o futuro as perspectivas são melhores ainda.
Este setor surgiu em 1999, quando os primeiros geradores eólicos foram instalados no Nordeste. A energia do vento tomou efetivo impulso a partir da crise energética de 2000/2001, provocada pela falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. Este fato colocou em cheque a maneira tradicional como o país vinha produzindo grande parte (65%) de sua energia elétrica. Ficou claro que o Brasil precisaria desenvolver outras fontes de energia. Assim, em 2002, o então governo Lula lançou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA), que se propunha a desenvolver fontes renováveis de energia, bastante abundantes no país. Foi assim que através do PROINFA construíram-se os primeiros parques eólicos, que em 2005 totalizavam uma capacidade instalada de 25 MW (Megawatts).

Somente o programa do governo não foi suficiente para desenvolver o mercado de energias renováveis; era preciso abrir espaço para uma maior participação do setor privado. Para isso, o Ministério das Minas e Energia decidiu introduzir os leilões de compra de energia renovável, em 2009. Ganhava o leilão a empresa que pudesse oferecer energia ao melhor preço, com as melhores garantias. Com isso, em curto espaço de tempo, os preços de comercialização da energia eólica caíram de R$ 374,00 por MW/h (Megawatt por hora) em 2002, para R$ 100,00 por MW/h em 2011. A queda no preço, fez com que o custo da energia eólica se igualasse praticamente ao preço da energia hidrelétrica, que sempre havia sido a mais barata e tradicional fonte energética brasileira.
Os principais fatores que levaram a este barateamento no preço da energia eólica foram a livre concorrência e seus efeitos positivos. Novas medições dos ventos trouxeram dados mais apurados; foi possível identificar correntes de vento mais constantes e potentes, que associadas a equipamentos mais eficientes aumentaram a geração de energia. A engenharia financeira dos projetos foi aprimorada, reduzindo os riscos para os investidores e aumentando as margens de lucro. A legislação, clara e objetiva, com pouca interferência do governo, passou a oferecer mais segurança no longo prazo, atraindo um número maior de investidores. Além disso, os custos de manutenção dos equipamentos são relativamente baixos.
Atualmente (2016) o país tem 5.141 turbinas eólicas em operação no país, distribuídas em 369 usinas, gerando 9,25 GW (Gigawatts) instalados. Desde o início dos leilões o setor já recebeu R$ 67 bilhões em investimentos, o que transformou o pais em um dos cinco maiores geradores de energia eólica do mundo. Hoje este tipo de energia atende 6,4% da demanda de energia elétrica do país e no Nordeste os parques eólicos locais chegam a suprir 30% da demanda local.
O potencial de geração eólica do país é imenso, estimado em 140 GW ou mais, e o crescimento da demanda fará com que este mercado continue em rápida expansão, pelo menos nos próximos dez anos. Em 2014 foram criados neste setor 40 mil empregos diretos e indiretos, número que até 2019 deverá chegar a 150 mil, quando a capacidade instalada chegar a previstos 18 GW.
(Imagens: Calçada do Lorena) 

Carro a diesel, quem ganha com isso?

sábado, 30 de julho de 2016
"Que, se os homens se dessem às coisas úteis com o mesmo fervor, com que se dão às coisas que lhe são impróprias, de nenhum proveito, e até mui perigosas, regeriam mais a fortuna, que a eles,  e subiriam tal grandeza, que de mortais os tornaria eternos a fama."  -  Salústrio  -  Guerra Jugurtina

Tramita na Câmara projeto que autoriza a fabricação e a venda de carros leves a diesel no Brasil. O projeto já foi rejeitado pelos deputados Sarney Filho (PV-MA) e Mendonça Filho (DEM-PE), respectivamente ministros do Meio Ambiente e da Educação do atual governo. Em 2015 o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) criou uma comissão especial e depois de cinco anos de tramitação trouxe o tema novamente para votação. O relator do projeto, deputado Evandro Roman (PSD-PR) pretende levar o projeto a votação até meados de junho. Assim, quando este artigo for publicado, o resultado da votação já será conhecido.
Para discutir o projeto, foram realizadas diversas audiências públicas, com a participação de montadoras, fabricantes de autopeças, produtores de combustíveis, órgãos ambientais, além dos ministérios do Meio Ambiente, das Minas e Energia, a Agência Nacional de Petróleo, Petrobrás e outros. De uma maneira geral, a maior parte dos especialistas se colocou contra o projeto.
Mesmo com as medidas de controle de emissões estabelecidas pelo governo, os veículos a diesel ainda emitem mais material particulado e óxidos de nitrogênio do que os automóveis rodando com gasolina ou etanol. Os padrões de emissão dos motores a diesel ainda estão acima daqueles recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Apesar de ter preço abaixo do de outros combustíveis, o diesel é mais poluente - especialmente o brasileiro que ainda tem um teor de enxofre mais alto do que o diesel dos EUA e Europa - além de ser importado.
O relator do projeto defende que o consumidor deve ter direito de escolha, já que carros a diesel tem consumo menor de combustível. A situação, no entanto, não se resume apenas a uma suposta liberdade de escolha do consumidor. O diesel tem um preço menor porque não tem a mesma tributação dos outros combustíveis, sendo utilizado por caminhões que fazem o transporte de cargas. Se o combustível vier a ser utilizado por automóveis de passageiros, aumentará o volume consumido e, consequentemente, suas importações. Com isso o governo precisará aumentar os impostos sobre o diesel, encarecendo os custos de todo o setor de transportes.
Outro aspecto refere-se ao meio ambiente e à saúde. É fato que o diesel é um dos combustíveis mais poluentes. Mesmo a Europa, depois do escândalo dos carros da Volkswagen (a montadora declarava determinado nível de emissão de gases, quando efetivamente os carros emitiam muito mais) já está começando a rever sua política ambiental com relação aos automóveis movidos a diesel. "A Europa começa a discutir a restrição desses carros, culpando o diesel pela poluição das regiões metropolitanas. E nós vamos receber o lixo tecnológico que vai ser proibido lá?", cometa ao jornal O Estado de São Paulo o deputado Bruno Covas, ex secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo e opositor do projeto.


O Brasil, assim como todos os países emissores de gases de efeito estufa, acordou metas de redução de emissões durante a Conferência Mundial do Clima de Paris, em dezembro último. A liberação dos motores a diesel para veículos de passeio aumentaria consideravelmente as emissões de gases no país, além de piorar os microclimas e a poluição das nossas grandes cidades. No balanço geral o projeto trará muitas desvantagens e algumas poucas vantagens. Estas últimas principalmente para o setor automotivo.
(Imagens: pontes romanas)


Combustíveis e emissões de gases

sábado, 23 de julho de 2016
"A vida não é um bem, nem um mal: é ocasião para o bem e para o mal."  -  Lucílio  -  Pensamento estoico

O setor de transportes é um dos que mais contribui para a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em todo o mundo, representando aproximadamente 20% do volume total das emissões. O mesmo ocorre no Brasil, onde grande parte dos transportes de produtos e mercadorias é feita através de caminhões. Na falta de um moderna infraestrutura de transportes de massa, parte significativa da população dos grandes centros urbanos brasileiros se utiliza do próprio automóvel, contribuindo mais ainda para o aumento das emissões de GEE.
Apesar da queda no consumo de combustíveis no Brasil entre 2014 e 2015 - 4,7% no caso do diesel e 7,3% no da gasolina - o aumento na queima dos combustíveis foi uma constante ao longo dos últimos 20 anos. A crise econômica deve refrear esta tendência ainda por mais um ou dois anos, mas logo que a economia mostrar uma pequena melhora e a produção e a distribuição voltarem a acelerar, a curva do uso de combustíveis voltará a subir. Por outro lado, apesar de ter reconquistado recentemente a autossuficiência volumétrica na produção do petróleo, o país ainda importa óleo diesel e outros derivados, dada a falta de capacidade para refino.

Do óleo diesel utilizado no Brasil, 75% do combustível é queimado pelo setor de transportes. Um volume considerável, que faz com que o país seja o segundo maior mercado mundial de consumo de diesel. A qualidade deste óleo combustível sempre foi bastante baixa, com altos índices de enxofre, o que aumentava a presença da fuligem resultante da queima do combustível. Desde 2013 o padrão do diesel melhorou bastante com o lançamento dos óleos tipo S-10 e S-50, propiciando considerável redução de enxofre. Outro aspecto na melhora da qualidade do diesel refere-se à sua composição; atualmente 7% de seu volume é constituído por biodiesel (óleo de origem vegetal). Este percentual deverá se elevar para 8% em 2017 e crescer 1% a cada ano até 2019, quando chegará aos 10% do volume do diesel.
A qualidade da gasolina brasileira, no que se refere à emissão de poluentes especialmente enxofre, era bastante baixa. A partir de janeiro de 2014, com nova formulação, a presença do enxofre na gasolina foi bastante reduzida, caindo de 800 ppm (partes por milhão) para 50 ppm. A adição de 25% de etanol anidro (álcool) à gasolina, faz com que 1/4 do combustível seja de origem renovável, não adicionando novas quantidades de GEE à atmosfera quando queimado. O programa brasileiro do etanol é único em todo o mundo (na quantidade em que é adicionada à gasolina), e é importante que o novo governo tenha na recuperação deste programa uma de sua principais metas de sua política energética.

A emissão de GEE pelo setor de transportes tem impacto direto sobre a saúde da população urbana, segundo diversos estudos já realizados. No entanto, entre 2003 e 2011 as emissões do setor de transportes aumentaram 17,8% na cidade de São Paulo, segundo dados da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Em 2013 63,1% das emissões de GEE na cidade eram originadas pelo setor de transportes. Destas, 51% gerados por automóveis; 17% por veículos comerciais leves e caminhões; 13% por ônibus e 3% pelas motocicletas, entre outros. Por isso, é importante melhorar a eficiência dos motores, inclusive através de programas de controle de emissões, e melhorar a qualidade ambiental dos combustíveis.
(Imagens: fotografias de pontes)

Aves urbanas

sábado, 16 de julho de 2016
"Para White (antropólogo Leslie White), cultura é um sistema integrado formado por três subsistemas distintos: o tecnológico, o sociológico e o ideológico. Esses três subsistemas estão interrelacionados e reagem mutuamente entre si."  -  Walter Neves  -  Antropologia ecológica

O Brasil abriga 1.833 espécies de aves, cerca de 20% do total mundial. Este número, no entanto, continua crescendo, já que são constantes as descobertas novas espécies nas diversas regiões do país, até nos arredores de grandes cidades como São Paulo e Curitiba. O número de variedades de pássaros habitando a região metropolitana de São Paulo (RMSP) gira em torno de 400, segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo. Somente na área do Parque do Ibirapuera, já foram observados 159 tipos de aves, cujo número aumenta em direção à Serra da Cantareira, na região Norte da cidade, e do parque Capivarí-Mono, no extremo sul da cidade, nos contrafortes da Serra do Mar.
Muitos dos habitantes antigos das cidades da região têm a impressão de que as espécies e o número de aves urbanas, as aves sinantropicas (que sendo selvagens se beneficiam da presença humana), vêm crescendo ao longo das últimas décadas. Mais plantio de árvores frutíferas e floríferas, aumento das áreas verdes e praças, conscientização em relação à proteção das aves (as crianças nem conhecem mais os estilingues e as arapucas); são alguns dos motivos que parecem ter atraído mais pássaros para áreas urbanas da RMSP. Tal interpretação é defendida pelo engenheiro e ornitólogo brasileiro Johan Dalgas Frisch, um dos maiores estudiosos das aves brasileiras.
Impressão ou não, o fato é que quanto maior o número de aves urbanas em nossas cidades, tanto melhor. Os pássaros, além dos seus cantos e de suas belas cores, prestam-nos serviços ambientais como o controle biológico de pragas (insetos, pequenos vertebrados), a polinização de flores e a disseminação de sementes. As aves também são um indicador ambiental; quanto maior a presença e a variedade de pássaros, melhor a qualidade do ambiente. Por isso é importante que os habitantes e os administradores municipais façam o plantio de árvores frutíferas e floríferas, atraindo grande número e tipos de aves para os ambientes urbanos.
As aves mais comuns na RMSP são o pardal e o pombo doméstico (ambas as espécies trazidas da Europa durante os primeiros anos de colonização), o sabiá da terra, sabiá laranjeira, tico-tico, saíra, sanhaço, bem-te-vi, cambacicas, beija-flor, coleirinha, corruíra, periquito, joão de barro, pica-pau anão, coruja buraqueira, entre outros. Para aqueles que querem alimentar as aves urbanas, especialistas recomendam recipientes colocados em árvores ou lugares abertos, contendo frutas como mamão, laranja, banana, tangerina, maçã, pêra, carambola; e sementes como o girassol, painço, quirera de milho e alpiste.
As cidades brasileiras, em geral, ainda têm grandes deficiências de infraestrutura, urbanismo e meio ambiente. Córregos poluídos por esgotos, loteamentos semiclandestinos sem arruamento e construídos em áreas de risco, falta de parques e arborização nas ruas; são problemas comuns a todos os municípios, há muitas décadas. Para modernizar o país é preciso que novas gerações de vereadores e prefeitos, devidamente preparados, tomem a si a tarefa de melhorar o padrão de habitabilidade de todos os bairros de nossas cidades, distribuindo democraticamente os benefícios do desenvolvimento econômico e tecnológico. Quando esta época chegar, será talvez o número e as espécies de aves urbanas que se avistam em cada rua, um dos fatores que definirá o padrão de desenvolvimento de cada município.
(Imagens: fotografias de igrejas medievais)   

Newsletter julho/agosto

sábado, 9 de julho de 2016
"A imagem primária (urtümliches Bild) que denominei 'arquétipo' é sempre coletiva, isto é, comum a pelo menos povos inteiros ou a períodos da história. Os principais temas mitológicos de todos os tempos e raças são muito provavelmente dessa ordem..."  -  Carl Gustav Jung citado por Joseph Campbell em As máscaras de Deus

Publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br

O processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff ainda tramita no Senado. Apesar do pouco entusiasmo com o governo interino de Temer por parte da maioria da população, segundo as pesquisas, é pouco provável que haja um retrocesso na situação. O interino acertou, segundo a esmagadora maioria dos economistas e empresários, na escolha da equipe econômica, formada por profissionais tarimbados no mercado e na política. Causou bom impacto a ideia de colocar limites aos gastos do governo; este Moloque ávido por aumentos de impostos. Fica a expectativa sobre outras medidas de efeito, que possam tirar o país do atoleiro econômico em que o meteram as administrações anteriores.
No campo político continua a ação salutar da operação Lava Jato, mirando em empresários, principalmente. Espera-se, com grande expectativa, que também políticos - aposentados e em exercício -, com contas a acertar com a Polícia Federal, sejam convocados ou visitados pelos eficientes agentes da instituição.

Para o ministério do Meio Ambiente o presidente interino Michel Temer convocou o deputado Sarney Filho (PV-MA), para ocupar a cadeira. Político experiente e deputado federal desde 1982, Zequinha (como é chamado pelos amigos) participou e participa de diversas comissões que discutem temas ambientais. Sarney Filho é advogado e já ocupou o mesmo ministério entre 1999 a 2003, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Sua indicação foi bem aceita por instituições ligadas ao setor do meio ambiente.
Logo no início de suas atividade, Sarney Filho criticou o acordo entre a empresa Samarco e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo, afirmando que a população da região, mais afetada pelo desastre de Mariana, não havia sido suficientemente consultada. Outro fato que deverá, já no início do mandato, trazer dores de cabeça ao ministro é a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 65/2012, apresentada pelo senador Acir Gurgacz (PDT-RO) e relatada pelo senador – e atual ministro da agricultura – Blairo Maggi (PR-MT). A PEC pretende trazer mais agilidade ao processo de licenciamento. Assim, a partir da apresentação de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) nenhuma obra poderá mais ser cancelada ou suspensa. Na prática, isso significa que o processo de licenciamento ambiental, realizado sob a supervisão de um órgão de controle ambiental, e que analisa se um empreendimento é factível ou não baseado em seus impactos socioambientais, deixa de existir. Se por um lado a aprovação de um empreendimento pode se tornar menos burocrática, também beneficiará os empreendedores mal intencionados. Tratava-se de um controle que a sociedade tinha sobre os impactos ambientais das atividades econômicas e do qual - graças a expoentes brilhantes de nosso Legislativo - agora abriu mão.

Outras áreas ambientais como o saneamento e a gestão de resíduos dificilmente terão algum avanço até as próximas eleições presidenciais. No caso do saneamento, faltam recursos às companhias estaduais, à Caixa Econômica Federal e ao BNDES. Investimentos privados, muitos dos quais realizados no passado por consórcios de empreiteiras agora envolvidas na Lava Jato, serão difíceis na prática. Consórcios internacionais, mesmo contando com parceiros locais, não deverão participar de eventuais licitações antes do final do atual mandato presidencial, quando então os rumos da economia ficarem mais claros. Na área da gestão de resíduos a situação é semelhante: prefeituras, bancos estatais de fomento e setor privado estão sem recursos, aliado ao fato de que a legislação nesta área também é confusa para os investidores estrangeiros.
No momento em que escrevemos esta newsletter a Câmara ainda não havia dado seu parecer final sobre o Projeto de Lei 2013/2011, que libera o uso do diesel em carros de passeio no país. Enquanto a Europa começa a rever o uso do diesel em automóveis e a Volkswagen é condenada a pagar multa bilionária nos Estados Unidos, por problemas de excesso de emissão em alguns de seus veículos, querem introduzir a tecnologia por aqui. A quem interessa o carro a diesel na terra do etanol?
(Inagens: prédios modernos)

Prazos para o lixo

sábado, 2 de julho de 2016
"O paradoxo da imaginação reside no fato de que o imaginário nada é e jamais parece. O olhar direto faz os deuses morrerem."  -  Alain  -  As ideias e as épocas

Em pouco mais de dois anos, em agosto de 2018, o país deverá estar preparado para colocar em funcionamento um dos maiores projetos de gestão de resíduos em todo o mundo - pelo menos teoricamente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que deveria entrar em vigor a partir de agosto de 2014, foi postergada para 2018 e para prazos mais longos dependendo do município. Assim, as capitais e os municípios de região metropolitana terão prazo até 31 de julho de 2018 para acabar com lixões, substituindo-os por aterros sanitários construídos de acordo com padrões técnicos aprovados. Já os municípios de fronteira e aqueles que contavam com mais de 100 mil habitantes de acordo com o censo de 2010, terão até julho de 2019 para realizarem as mesma obras. As cidade com 50 a 100 mil habitantes, terão um prazo ampliado para julho de 2020. Finalmente, para os municípios com menos de 50 mil habitantes (base 2010) o prazo final para construírem seus aterros, será 31 de julho de 2021.
Com prazos tão esticados é pouco provável que os atuais prefeitos - e até os futuros - estejam muito preocupados com a questão da gestão dos resíduos em suas cidades. A distribuição dos habitantes nos municípios brasileiros nos dá uma indicação disso. O país tem 5.299 cidades com menos de 100 mil habitantes; 252 municípios com população entre 100 mil e 1 milhão de pessoas; e 14 cidades com mais de um milhão de habitantes (base 2008). Sendo assim, grande parte dos municípios (95%) terá tempo até 2020, praticamente até o final do mandato dos prefeitos eleitos em 2016, para colocarem em prática projetos de coleta seletiva, organizarem as partes envolvidas e construírem aterros sanitários. Da maneira como conhecemos nossas administrações públicas e a tolerância com que a Justiça trata prefeitos infratores, é pouco provável que mesmo estes prazos, tão alongados, sejam mantidos. Mas, até é possível milagres acontecerem.  
A questão da correta gestão dos resíduos - da coleta até a disposição final - é um dos grandes desafios do Brasil moderno. Em 2014 o país gerou 78,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, dos quais 90,6% foram coletados. Quase 10% do lixo brasileiro acaba sendo enterrado em quintais, queimado em terrenos baldios ou simplesmente espalhado em ruas e avenidas, dando aos lugares aparência de sujeira, atraso e abandono. Do lixo efetivamente coletado 58,4% são direcionados aos aterros sanitários e 41,6% são depositados em aterros controlados (eufemismo para lixo compactado sem nenhum tratamento) e lixões. Em termos gerais é possível depreender que a situação do lixo no Brasil continua ruim.

Projetos de reciclagem em andamento ainda são poucos. Cerca de 1 mil cidades brasileiras têm implantados projetos de tamanhos variados, mas o volume total do material reciclado não passa dos 8% do total dos resíduos urbanos. Empresas de alguns setores se organizaram e assinaram acordos setoriais com o Ministério do Meio Ambiente, planejando implantar projetos logística reversa, para recolher seus resíduos - embalagens, restos de produtos, baterias, etc.
Grande parte do lixo, no entanto, ainda espera por uma destinação correta. São as prefeituras que darão início ao processo, instituindo a separação obrigatória do lixo, organizado catadores e construindo aterros sanitários. Os prazos foram dados, será que os prefeitos estão preocupados?
(Imagens: fotografias de templos maias)

Dia Mundial do Meio Ambiente, lembra?

sábado, 25 de junho de 2016
"Sem mais o antigo ritmo, tão propício às culturas, o clima de S. Paulo vai mudando. Não o conhecem mais os velhos sertanejos afeiçoados à passada harmonia de uma natureza exuberante, derivando na intercadência firme das estações, de modo a permitir-lhes fáceis previsões sobre o tempo."  -  Euclides da Cunha  -  Migalhas de Euclides da Cunha

Escrevo este texto no Dia Mundial do Ambiente, 5 de junho de 2016. A data foi instituída pela ONU durante a Conferência Mundial do Meio Ambiente, realizada em Estocolmo em 1972. Há 44 anos, portanto. Trata-se de uma data comemorativa, no sentido original da palavra latina comemorare: "trazer à memória", "lembrar-se", e não no sentido em que usualmente a empregamos, como "comemoração" e "celebração". Em relação ao meio ambiente, infelizmente, não há quase nada a celebrar.
O contexto econômico e social em que foi criada a data, nos dizem bastante sobre a gravidade da situação ambiental em todo o mundo, já naquela época. Apesar da Guerra Fria, o capitalismo estava em pleno desenvolvimento, impulsionado pela gigantesca expansão da economia mundial nos anos posteriores à 2ª Guerra Mundial. O preço do mais importante combustível da sociedade industrial, o petróleo, ainda estava barato - o aumento de mais de 400% no preço do barril só ocorreria em 1973, com a Crise do Petróleo. A indústria americana estava em plena expansão: a demanda por moradias, eletrodomésticos, automóveis e demais produtos de consumo crescia a cada ano. A Europa e o Japão, ajudados pelos financiamentos do Plano Marshall, recuperavam e ampliavam seu parque industrial, ingressando definitivamente no capitalismo estilo americano; a sociedade de consumo.  

A intensa atividade industrial, o avanço da agricultura planificada, a expansão das cidades e o aumento do consumo - mesmo nos países pobres - foram os principais aspectos do capitalismo mundial daqueles anos. Outra característica é que as leis de proteção ao meio ambiente eram quase inexistentes, mesmo nos países altamente industrializados. Rios poluídos por efluentes industriais e descargas de produtos químicos em terrenos desocupados eram cenas comuns na Europa e nos Estados Unidos - "Erin Brockovich" (2000), estrelado por Julia Roberts e "A qualquer preço" (A Civil Action,1998) com John Travolta, são filmes que retratam estes fatos nesta época nos Estados Unidos. Nos países ainda comunistas, o meio ambiente era tratado com menos cuidado ainda. A destruição causada pela indústria nestes regimes, ficou conhecida depois da queda do Muro de Berlim.  
Os tempos estavam maduros, principalmente nos países capitalistas industrializados. Aqui e ali surgiram as organizações não governamentais (ONGs) - Friends of the Earth (1969); Greenpeace (1971); WWF (1961); Worldwatch Institute (1974) - convocando manifestações, preparando abaixo-assinados, pressionando políticos; a fim de que fossem criadas leis ambientais rígidas e eficientes para coibir a degradação dos recursos naturais. Toda essa ação converge para a criação de uma legislação local e internacional, voltada à proteção do meio ambiente e, como consequência, fiscalizar  governos e o setor privado. Foi nesse contexto que se realizou a Conferência Mundial do Meio Ambiente, em 1972.
De lá para cá, outros fatos influenciam nossa atitude em relação à natureza: o acidente nuclear de Chernobyl, o aquecimento global, a Queda do Muro de Berlim, a invenção da internet, as telecomunicações, a expansão do capitalismo global e a sociedade de consumo... Nossa atitude em relação ao meio ambiente mudou para melhor, mas de maneiras diferentes os recursos naturais continuam sendo explorados e dissipados como antes. Lembremo-nos do Meio Ambiente!
(Imagens: fotografias de megalitos)

Chuva de verão no quintal de casa (memórias de infância)

sábado, 18 de junho de 2016
"Freud chegou a dizer que uma mudança nas relações entre os homens e a propriedade poderia representar um avanço civilizatório maior do que se conseguiu com as ordens éticas. No entanto, a concepção idealizada da natureza humana criada pelos socialistas impediu que isso acontecesse."  -  Nina Saroldi  -  Para ler Freud - O mal-estar na civilização 

No verão as chuvas eram fortes e vinham rápidas. Vento sudeste, nuvens escuras avançando da direção do morro e da Prainha.

Os abacateiros no quintal envergavam seus troncos, dobrando e quebrando os ramos mais podres, cobertos de líquens. O vento arrancava dos galhos as folhas velhas, junto com abacates maduros e outros ainda pequenos. O céu escurecia ainda mais e então caia forte chuva, encharcando a areia de todo quintal, formando poças d'água limpa aqui e ali, cheias de brotos de abacate ressecados.

As nuvens mais escuras e pesadas se foram. O sol volta a brilhar por entre nuvens mais claras. A areia já absorveu toda a água e as poças desapareceram. Os pingos continuam a cair das folhas, mas os primeiros sanhaços e sabiás já pousam para bicar os abacates maduros, que o vento arrancou dos galhos e que se partiram ao caírem ao solo. O ar está úmido e fresco, o céu azul vai reaparecendo aos poucos e o sol retorna com seu calor e sua luz.

Amanhã cedo preciso rastelar as folhas que caíram, juntar e deixar secar. Depois de amanhã à tarde, boto fogo. Agora, por hora, ainda tenho tempo e isca pra ir pescar caratingas no rio.
(Imagem: fotografia de Ricardo E. Rose)

O novo relatório do PNUMA

sábado, 11 de junho de 2016
"Os homens têm uma tendência universal para conceber todos os seres à sua imagem e para transferir para cada objeto aquelas qualidades com que estão familiarizados e de que estão intimamente conscientes."  -  David Hume  -  Obras sobre religião

O Programa nas Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) publicou seu mais recente relatório "Global Environmental Outlook (GEO-6)" (Perspectiva Ambiental Global), sobre a situação mundial do meio ambiente. Resumo dos principais pontos do estudo está disponível em inglês no site do PNUMA em (http://www.unep.org/newscentre/Default.aspx?DocumentID=27074&ArticleID=36180&l=en). As perspectivas, como sempre, não são nada otimistas. Ou seja, continuamos usando os recursos naturais no mesmo ritmo descontrolado de antes e as perspectivas de uma recuperação da natureza são cada vez mais difíceis.
O estudo destaca que o crescimento populacional associado à rápida urbanização e aos altos índices de consumo, está provocando a degradação e a desertificação dos solos de várias regiões. Com isso, o crescimento desordenado compromete os recursos hídricos e, consequentemente, a prática da agricultura, trazendo de volta o espectro da fome, que a revolução verde na agricultura havia afastado há décadas. Na Índia, no Paquistão e na China, já são comuns os fenômenos de rebaixamento do lençol freático, forçando os camponeses a bombearem sua água de profundidades cada vez maiores, às vezes não encontrando mais nada e forçando a família abandonar suas terras e emigrar para as periferias das cidades.   
O relatório também faz observações com relação a problemas ambientais específicos às diversas regiões do globo. Na América Latina, fato importante é o aumento da emissão de gases de efeito estufa, causa principal do aquecimento da atmosfera e das mudanças climáticas. Nesta região, segundo o relatório, este fenômeno é acelerado pela criação de gado. O gado bovino, em seu processo de digestão, rumina seu alimento liberando gás carbônico (CO²) para a atmosfera. O Brasil, país que possui um dos maiores rebanhos do mundo, começa lentamente a estudar o assunto, mas ainda está muito longe de uma solução simples e economicamente acessível. Este é um dos motivos pelo qual muitos grupos da sociedade civil incentivam a redução do consumo de carne - além das vantagens para a saúde.

O aquecimento global, de acordo com o relatório, também está causando a redução dos glaciares na cordilheira dos Andes. O aumento médio da temperatura faz com que a cada ano se forme uma quantidade menor de gelo nos altos picos da cadeia de montanhas. A redução da extensão das geleiras diminui o volume de água que a cada primavera, quando o gelo derrete, desce para os vales. Com isso, cai o volume de água disponível tanto do lado ocidental dos Andes, na seca região à beira do oceano Pacífico, quanto do lado oriental, nos vales dos rios que correm para o rio Amazonas. O processo é relativamente lento, mas pode diminuir o volume de água do rio Amazonas e assim comprometer parte da biodiversidade da grande floresta.
Apresentando o relatório, o diretor executivo do PNUMA, o brasileiro Achim Steiner, disse que "se as tendências atuais continuarem e se o mundo deixar de implantar soluções que melhorem os padrões atuais de produção e consumo, se falharmos ao utilizar os recursos naturais de uma maneira sustentável, então o estado do meio ambiente em todo o mundo continuará a declinar." O relatório do PNUMA é mais um alerta como muitos outros. A mudança a empreender é muito grande e demorada. Mas precisamos começar logo, antes que seja tarde.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Plano Diretor e agenda ambiental

sábado, 4 de junho de 2016
"Não se deve confundir liberalismo com conservadorismo. Na realidade, liberais e conservadores só têm em comum a sua oposição ao socialismo. Como prevalece de uma maneira geral a ilusão de que o espectro político seja linear, os liberais ora são colocados à direita dos conservadores, ora mais ao centro. Nada mais equivocado."  -  Donald Stewart Jr.  -  O que é o liberalismo?

Até os anos 1950 o Brasil era um país essencialmente rural, com somente 35% de sua população vivendo em áreas urbanas. Atualmente, mais de 85% dos brasileiros vivem em cidades, a maioria delas com até 100 mil habitantes. São as cidades, concentrando a maior parte dos habitantes, que têm um forte impacto nas atividades econômicas e na gestão dos recursos do país. Esta a razão pela qual é importante que os municípios criem planos que ordenem seu crescimento, possibilitando um desenvolvimento harmônico e voltado ao bem estar de sua população.
Um dos principais instrumentos para ordenar o crescimento de uma cidade é o Plano Diretor. Este é um plano que servirá como diretriz à expansão territorial, populacional e econômica de uma cidade. Na definição da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), um Plano Diretor é o "instrumento básico de um processo de planejamento municipal para a implantação da política de desenvolvimento urbano, norteando a ação dos agentes públicos e privados (ABNT, 1991)". Parece óbvio, mas o Plano Diretor tem como função principal proporcionar um crescimento planejado dos municípios - coisa que a maior parte deles não coloca em prática.
Recentemente o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic), contendo diversos dados sobre os 5.570 municípios brasileiros. Lançado pela primeira vez em 1999, o estudo investiga o funcionamento das instituições públicas municipais em seus diversos aspectos. Chama a atenção na atual edição (2015) de que metade das cidades do Brasil não dispõe de um Plano Diretor. Segundo matéria sobre o assunto publicada no jornal O Estado de São Paulo, a ausência de um Pano Diretor em tão grande número de cidades pequenas e médias revela a ausência de peritos, preparados para realizarem este tipo de trabalho junto às prefeituras. Mesmo assim o avanço nesta área foi considerável, já que há dez anos somente 14,5% dos municípios tinham o plano.
Com relação ao planejamento urbano levando em consideração os aspectos ambientais - tema da Agenda 21 lançada durante a Eco 92 no Rio de Janeiro -, somente 22% das cidades brasileiras estão em fase de implantação deste programa. Emílio La Rovere, coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente do programa de pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma em declaração ao jornal O Estado de São Paulo: "É preciso mudar a cultura dos prefeitos e capacitar o corpo técnico dos municípios. Em geral, eles incham a folha de pagamentos, empregam parentes, prestam favores políticos, não têm funcionários de carreira".

Para a maior parte dos municípios a agenda ambiental ainda é um plano para um futuro longínquo. Sem recursos financeiros e pessoal capacitado, as cidades mal conseguem atender suas prioridades imediatas, como a gestão dos resíduos urbanos, o tratamento dos efluentes domésticos e a varrição e limpeza das ruas. Até a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi postergada pelo Congresso para 2018, por não ter a maioria dos prefeitos condições de implantá-la. Dadas as condições atuais do país, já faremos muito se conseguirmos universalizar o Plano Diretor e fazer com que seja efetivamente seguido por todas as administrações.
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Novo ministro do meio ambiente toma posse

sábado, 28 de maio de 2016
"No momento em que Deus criou o mundo, o movimento do caos deve ter feito o caos parecer mais desordenado do que quando repousava em pacífica desordem. É assim que, entre nós, a confusão de uma sociedade que se reorganiza deve parecer o excesso da desordem."  -  Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort  -  Máximas e pensamentos & Caracteres e anedotas

Aprovado o impedimento da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos deputados e pelo Senado, toma posse o vice-presidente Michel Temer. Caso o impedimento seja confirmado, o novo governo passará a dirigir o país em definitivo. Afora as críticas daqueles que são contra o impedimento, argumentando que se trata de um golpe de estado, o novo governo assumiu discretamente, logo passando ao trabalho. O tempo para mostrar os primeiros resultados – a “lua de mel” com a opinião pública – é curto e a situação econômica e social do país precisa de intervenções urgentes. 
A equipe ministerial, como sempre, não despertou o entusiasmo de todos. Ex-integrantes do governo passado, políticos com nomes citados na operação Lava-Jato, ministros que pouco dominam o assunto de sua pasta, técnicos e ex-ministros competentes, há de tudo. No ministério do Meio Ambiente, Temer colocou José Sarney Filho, político que já ocupou o ministério anteriormente. Zequinha, como é chamado, é advogado, filho do ex-presidente José Sarney e deputado federal desde 1982. Foi ministro do Meio Ambiente (1999/2003) durante parte do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde 2005 Sarney Filho é filiado ao Partido Verde (PV). Com longa experiência em assuntos ligados ao meio ambiente, sua indicação foi bem aceita, não sendo criticada por lideranças ou ONGs ligadas ao setor do meio ambiente.  
Em uma de suas primeiras ações como ministro do novo governo Sarney Filho criticou o acordo de recuperação do rio Doce, assinado entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo com a empresa Samarco e homologado pela Justiça, no montante de R$ 20 bilhões. Segundo o ministro, faltou o envolvimento da sociedade civil, que não foi suficientemente ouvida no processo. Mesmo assim, afirmou que não interferirá no acordo e acompanhará o desenrolar dos acontecimentos.
Fato que deverá trazer grandes dores de cabeça ao novo ministro é a recente aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 65/2012 apresentada pelo senador Acir Gurgacz (PDT-RO) e relatada pelo senador – e atual ministro da agricultura – Blairo Maggi (PR-MT). A PEC pretende trazer mais agilidade ao processo de licenciamento. Assim, a partir da apresentação de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) nenhuma obra poderá mais ser cancelada ou suspensa. Na prática, isso significa que o processo de licenciamento ambiental, realizado sob a supervisão de um órgão de controle ambiental, e que analisa se um empreendimento é factível ou não baseado em seus impactos socioambientais, deixa de existir. Se por um lado a aprovação de um empreendimento pode se tornar menos burocrática, pode também beneficiar empreendedores mal intencionados – que não são raros.

Sarney Filho afirmou que é contra a lei, mas ainda não disse como contornará a situação. “Existe um pretexto de maus empresários que querem se aproveitar do licenciamento, para não cumprir as etapas que a legislação exige”, comentou o ministro. Além desse, o ministério deverá enfrentar outros desafios, que são muitos: o controle do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, o alcance das metas de redução de emissões, a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos a partir de 2018... Uma tarefa nada fácil. Por isso, desejamos muita disposição e boa sorte ao ministro Sarney Filho!
(Imagens: fotografias de Ricardo E. Rose)

Catástrofes e a sobrevivência humana

sábado, 21 de maio de 2016
"Enquanto vivíamos no meio de terrores elegantes, acomodávamo-nos muito bem a Deus. Quando outros terrores, mais sórdidos porque mais profundos, nos invadiram passamos a precisar de outro sistema de referências, de outro patrono."  -  E. M. Cioran  -  A tentação de existir

Com certa regularidade encontramos artigos na mídia, falando sobre o provável fim da nossa civilização ou do desaparecimento da humanidade, por algum cataclismo. Nestes relatos, as possíveis causas da destruição de nosso modo de vida são geralmente ambientais; mudanças do clima afetando regimes de chuva e a temperatura, prejudicando colheitas e reservas de água, etc. Um longo encadeamento de fatos, cujas origens estão na nossa maneira irresponsável de explorar os recursos naturais do planeta.
Os mitos sobre o surgimento de catástrofes, destruindo cidades, impérios e multidões de vidas, são bastante antigos. Já na epopéia de Gilgamesh, um dos mais antigos documentos literários conhecidos (cerca de 2.700 a.C.), é contado como os deuses assírios destruíram o mundo através de um dilúvio, do qual apenas se salva Utnapishtim, em condições semelhantes às do hebreu Noé. Egípcios, judeus, gregos, persas; quase todos os povos da Antiguidade tinham relatos sobre a destruição da humanidade em algum período do passado ou do futuro. Os maias e os astecas, povos que habitavam a região do México e da América Central, desenvolveram uma elaborada religião, que exigia sacrifícios humanos e a construção de pirâmides, a fim de evitar que os deuses se vingassem dos homens e destruíssem o mundo.
A origem destes mitos muito provavelmente está baseada em fatos reais, já que desde o seu aparecimento sobre a terra, diversas gerações de humanos presenciaram fenômenos naturais impressionantes, que através de relatos transmitiram às gerações posteriores. Grandes terremotos sucedidos por maremotos, chuvas torrenciais e enchentes, explosões vulcânicas, quedas de meteoritos; fenômenos cujas descrições foram incorporadas aos relatos folclóricos e religiosos. Mitos como os do Dilúvio e de Atlântida (civilização situada no oceano Atlântico, destruída por explosões vulcânicas e maremotos, segundo relatos do filósofo grego Platão), muito provavelmente tiveram origem em fatos reais, ocorridos em passado remoto.

Os relatos sobre grandes cataclismos, afetando e dizimando parte ou a totalidade da humanidade, não deixaram de existir. A diferença é que atualmente o relato mitológico e religioso foi substituído pelo científico. Apesar de não podermos antever com exatidão o tipo de catástrofe que poderá nos atingir, sabemos pela ciência que o desastre, se ocorrer, será causado por fenômenos naturais até certo ponto previsíveis, ou pela interferência humana. Assim, desde o final da década de 1940, temos conhecimento do risco que corremos em destruir o planeta com explosões de armas nucleares. Estamos cada vez mais cientes dos efeitos das atividades econômicas sobre o meio ambiente, destruindo os ecossistemas e, através de reações em cadeia que ainda não conseguimos explicar em detalhes, minando gradualmente nossas condições de sobrevivência nas condições atuais.
Os relatos sobre catástrofes destruidoras têm uma forte componente emocional. Muitas dessas narrativas foram usadas pelas religiões, para fortalecer a doutrina e manter os fiéis sob controle. Atualmente as teorias da ciência são capazes de fazer previsões, mostrando o que poderá ocorrer ao planeta – e a nós principalmente – se continuarmos mantendo as mesmas condições de produção, consumo e distribuição das riquezas. Pode não sobrar ninguém para contar a história da epopeia humana.
(Imagens: fotografias de Pablo Vaz)  

O filme "Zeitgeist"

sábado, 14 de maio de 2016
"Aldous Huxley traduziu tudo isso na linguagem de nosso século com estas palavras: 'Dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões sobre liberdade e responsabilidade.'"  -  Giovanni Reale  -  O saber dos antigos

Zeigeist é palavra de origem alemã e quer dizer "espírito do tempo"; a mentalidade que impera em determinada cultura em certo período histórico. O Termo foi empregado pelo filósofo Georg F. Hegel em sua obra Filosofia da História.

Filme: ZEIGEIST
Direção: Peter Joseph (pseudônimo de James Cayman)
Tema: documentário sobre teorias da conspiração
País: Estados Unidos, 2007
Duração: 110 minutos aproximadamente
Na web: https://www.youtube.com/watch?v=5R_Vm2wCQj4

Resenha do filme:
O filme é dividido em três partes, cada uma procurando denunciar uma tentativa de manipulação das pessoas. Em sua primeira parte, intitulada “A maior história já contada”, o filme faz uma crítica radical a todas as religiões, apresentando cenas que associa a guerra às religiões. Em seguida o filme se concentra em uma crítica do cristianismo. Através de uma série de dados, compara as religiões que existiam na bacia do Mediterrâneo pouco antes do aparecimento do cristianismo. Todas as religiões apresentam aspectos em comum, como:
- A divindade nasce de uma virgem;
- A divindade participa da luta entre o bem e o mal;
- Morte e descida aos infernos;
- Ressurreição da divindade.
O filme compara divindades como Krishna, Mitra, Jesus, estabelecendo paralelos entre as religiões.
Em seguida, o filme procura explicar as origens astronômico-astrológicas destas crenças, baseada em uma conjugação astrológica da estrela Sirius e a Constelação de Órion (as Três Marias, os Três Reis Magos). Compara estas informações com crenças do Antigo Egito e o conceito astrológico de “Eras” (Era de Touro, Era de Peixes, Era de Aquário, etc). O filme argumenta que a existência histórica de Jesus é discutível e que o cristianismo é muito mais o resultado de uma elaboração filosófico-teológica, realizada ao longo do 1º e do 2º séculos e estruturada pelos primeiros Concílios, principalmente o de Nicéia, 325 a.D.
Em sua segunda parte, intitulada “O mundo todo é umpalco”, o filme apresenta uma versão bastante particular do ataque às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2009. Segundo o filme, o ataque às torres e ao prédio do Pentágono é um golpe do governo americano e das forças que dominam o país, para poderem impor ao povo americano um regime menos democrático, com menos liberdade.
A terceira parte do filme, cujo título é “Não te preocupes com os homens atrás das cortinas”, trata do poder da imprensa e da propaganda, principalmente da TV americana e dos bancos. Nesta parte o filme apresenta vários exemplos - não contados pela história oficial – de como os EUA forma levados a diversas guerras, levados pela propaganda. A participação em guerras correspondia aos interesses das elites (imprensa, banqueiros, industriais) que só tinham a ganhar com os conflitos.
O file conclui que forças dominadoras tentam, através da religião, da propaganda e da educação, imbecilizar o povo americano e levá-lo a servir de instrumento aos interesses das elites.
Comentário:
Apesar de apresentar algumas informações e interpretações discutíveis, o filme ”Zeitgeist” representa uma crítica e um alerta contra o domínio exercido pelo Estado. Não por acaso que durante o filme várias vezes é feito referência ao “Grande Irmão”, a representação do governo autocrata no romance “1984” de George Orwell. Trata-se, em suma, de uma crítica ao poder, exercido pela Religião, Estado, Propaganda e Educação. 
(Imagens: fotografias de colaboracionistas de guerra de Robert Capa)

Newsletter de meio ambiente - maio e junho 2016

sábado, 7 de maio de 2016
"As instituições não caducam pela sua antiguidade: caducam pela imoralidade dos homens que as representam, que as encarnam e que as exercem."  -  Rui Barbosa  -  Obras completas Vol. XXX Tomo 1

Publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br

Nova situação no país: a Câmara dos deputados vota o impedimento da presidente por esmagadora maioria. Agora, em algumas semanas, o Senado deverá dar o seu voto. Como todos sabem, as perspectivas de manutenção da presidente Dilma no cargo são bastante remotas. Além dos motivos alegados no processo contra a presidente - as "pedaladas fiscais" e a edição de leis sem aprovação do Congresso -, o governo também pecou por completa incapacidade administrativa e falta de rumo na condução de suas políticas. Tudo isso acelerou a crise econômica, que com a desaceleração da economia chinesa se tornou mais aguda. Resultado: corte (em alguns casos eliminação) de investimentos em infraestrutura, redução de recursos para a saúde, educação e programas sociais. As vítimas são sempre as classes mais baixas, cuja única fonte de renda é o emprego, e a classe média, cujos objetivos de vida - melhor escola para os filhos, viagens internacionais, cursos de aprimoramento -, tiveram que ser postergados.
O desenvolvimento político do país ainda é uma grande incógnita. Tudo indica que assumirá o vice-presidente, Michel Temer, acompanhado de uma nova equipe de governo. Dizem os especialistas que Temer terá aproximadamente dois meses para mostrar a que veio, apresentando objetivos e maneiras de alcançá-los. Por isso, não poderá perder tempo com assuntos de importância secundária no momento atual do país. Também precisará encaminhar reformas que necessariamente terão que ser votadas pelo Congresso durante seu mandato. Assim, talvez em 2019, quando o novo presidente assumir o cargo, o país esteja novamente pronto para retomar o crescimento. Isso assumindo que tudo ocorra como (por eles) planejado, sem muita interferência da oposição e considerando que a economia mundial continue estável.
Com tantos assuntos aparentemente mais importantes sendo tratados na imprensa, o tema do meio ambiente quase que desaparece. Listo aqui alguns assuntos ambientais que me chamaram a atenção nos últimos dois meses e que parecem apontar para a maneira como a questão continua sendo tratada - ou não tratada.
Com relação ao desastre de Mariana, a maior catástrofe ambiental que já afetou o país - e que proporcionalmente foi pouco noticiada - as informações na mídia são cada vez mais minguadas. Assinado no mês de março, o acordo para recuperação do rio Doce entre a empresa Samarco e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo - com prazo de término de quinze anos - aparentemente o problema está equacionado. No entanto, persiste a falta d'água em algumas localidades, faltam informações para os pescadores, multas e indenizações ainda não foram pagas pela Samarco e a lama, transformada em poeira, afeta a saúde de moradores do município de Barra Longa. Isto para citar somente alguns problemas. O Estado e a Justiça lavam suas mãos, certamente sob o argumento de que já fizeram a sua parte e sem pensar que as providências são demoradas. Enquanto isso a população sofre.
Outro assunto importante, também pouco noticiado, diz respeito à flexibilização do licenciamento ambiental para a realização de obras. Segundo a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 65/2012, que tramita no Senado, qualquer obra poderia ter início, apenas com a apresentação do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), elaborado pelo próprio empreendedor. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, é contra a iniciativa, assim como todas as entidades ambientalistas e aquelas voltadas para o crescimento sustentável. Comparativamente, a situação seria a mesma de um crime, onde os suspeitos seriam inocentados por apresentarem uma declaração de inocência.
Imperceptivelmente os efeitos das mudanças climáticas também se fazem presente, através das ressacas que ocorreram no litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Ondas altas, provocadas por ventos no alto mar sempre houve; a diferença é que a cada ano a água vem avançando cada vez mais para dentro da faixa costeira. A região de Santos, cuja orla foi bastante afetada pelos vagalhões, já tem estudo preparado sobre os efeitos do aumento do nível do mar em toda a localidade.
Por fim, resta falar sobre a participação da presidente Dilma na cerimônia de assinatura do Acordo sobre as Mudanças Climáticas, em Nova York. Cercado de muita tensão - assessores diziam que a presidente falaria do "Golpe" que sofrera - o discurso afirmou os pontos acordados pelo Brasil em Paris, na reunião da COP-21. Além da criação de expectativas e discursos otimistas é preciso que os próximos governos efetivamente trabalhem para que o país alcance as metas acordadas.
(Imagens: fotografias de Cedric Nunn)