Termelétricas e geração de empregos

sábado, 25 de março de 2017

"Sábio é aquele que não se aflige com o que lhe falta e se satisfaz com o que possui."  -  Demócrito (460 AEC - 370 AEC)

A geração de empregos na implantação de termelétricas a gás natural tem duas fases. O processo é bastante parecido na construção de termelétricas a gás, carvão e óleo. Estes últimos dois combustíveis, no entanto, estão caindo em desuso, porque têm grande impacto ambiental e pela disponibilidade de gás procedente do pré-sal.

Na primeira fase, a da construção, são gerados em média de 800 a 1.500 empregos diretos, dependendo da capacidade de geração do empreendimento. O período de construção pode se estender por um e meio a dois anos e meio. Estes números são bastante parecidos no mundo todo, seja nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Brasil.

A construção é geralmente executada por empresas especializadas em diversas áreas (engenharia, construção, montagens, fornecedores de equipamento, etc.), coordenadas por uma empresa gerente do projeto. Esta pode ser uma empresa só ou um grupo de empresas associadas. Outras vezes a construção e o gerenciamento é feito por uma só empresa.

A mão de obra utilizada por estas empresas é, em grande parte, especializada e formada por profissionais empregados nestas empresas. Pode ocorrer também que a empresa-gerente do projeto ofereça treinamento profissional para trabalhadores da região onde será implantado o projeto. O número destes trabalhadores contratados localmente, no entanto, é reduzido. Esta prática é bastante comum em projetos nos Estados Unidos e em alguns projetos no Brasil.

Para cargos que necessitam de mais conhecimento, neste caso os engenheiros de operação da usina e outros, é oferecido treinamento específico - às vezes na sede do fabricante do equipamento. Para um projeto de termelétrica implantado no Sul do país, por exemplo, os engenheiros da empresa-gerente do projeto receberam treinamento na matriz do fabricante da usina, na China.

Terminada a obra, os 800 a 1.500 trabalhadores são deslocados para outro lugar, onde seu empregador tem um outro projeto em andamento. Alguns destes trabalhadores acabam permanecendo na cidade, onde o projeto foi implantado. Muitas vezes, sem local para morar, acabam se estabelecendo em áreas públicas.

Em sua fase de operação, uma usina termelétrica não demanda grande quantidade de funcionários. Como exemplo podemos considerar o caso de uma usina de 360 MW nos Estados Unidos, que opera com 27 pessoas. Uma outra usina, com capacidade de 900 MW, denominada "Magnolia energy project", na cidade de Ashland, no estado do Mississipi, opera com 25 funcionários. Estes são só dois exemplos do que ocorre nos EUA, país que detêm o maior número de usinas termelétricas. No Brasil, um dos exemplo é o da usina UTE Norte Fluminense, localizada em Macaé, com capacidade de 780 MW, opera com 44 empregados.

Provavelmente este número de empregados não incluei os terceirizados - segurança, limpeza e eventual manutenção - que pode envolver mais 20 a 40 trabalhadores.
Portanto, na melhor das hipóteses uma usina termelétrica pode gerar cerca de 50 empregos diretos (melhor pagos) e mais 50 indiretos. Muito pouco pelo imenso impacto ambiental e social do projeto.

Por outro lado, há que se considerar as obras de infraestrutura e de segurança a serem construídas e mantidas pela cidade, para abrigar um empreendimento desta monta. Hospital com médicos e leitos adicionais para queimados; corpo de bombeiros devidamente equipado para emergências como incêndios e explosões; obras de infraestrutura viária, entre outros. São despesas que terão que ser custeadas pela administração da cidade, em parte com a receita adicional de impostos.

Sob aspecto de geração de empregos, uma termelétrica pode não ser um bom negócio. Mesmo que consideremos os empregos indiretos - eventuais fornecedores de serviços e equipamentos - estes serão muito poucos, já que grande parte é suprido por empresas especializadas.

(Cogita-se a construção de uma termelétrica a gás na cidade de Peruíbe. O impacto sobre a vida do município - cuja qualidade do ar é um dos melhores do mundo - será muito grande)
(Imagem: termelétrica)

A questão da cultura

sábado, 18 de março de 2017

A questão da cultura

A cultura como uma estrutura invisível, mas perceptível que está presente, "fundamenta" uma sociedade. Sociedades mais novas, como a brasileira, devem ter uma estrutura cultural mais "tênue" mais fraca ou menos estruturada, do que, por exemplo, uma cultura indiana ou chinesa.

Nestas, as pessoas convivem em uma "base cultural comum" há mais de dois mil anos. Mas, o que distinguiria uma "base cultural comum" de outras? Seria possível "medir" esta estrutura cultural e identificar-lhe as diferenças entre uma cultura e outra?

Outra questão: como entraria nesta equação a cultura de massa? Até que ponto a globalização tem feito um "mix" de diversas culturas?

Ainda com relação a isso, o que é comum na "cultura global"? O que cada cultura tomou para si da cultura global, incorporando-a à sua? E esta "cultura transplantada" ainda permanece global ou se tornou caracteristicamente local?

Em suma, o que é essa "teia", esse meio que tudo permeia chamado de cultura, no qual nos movemos ou que se move em nós, se considerarmos a teoria dos memes?
(Imagens: tabuinhas cuneiformes da Babilônia)

Newsletter março/abril/maio 2017

sábado, 11 de março de 2017

(publicado originalmente no site www.ricardorose.com.br)

Estamos na quarta-feira de Cinzas e muitos, seguindo a velha tradição brasileira, dizem que a partir de agora o ano de 2017 vai começar. Aquele mesmo ano que em final de 2016 muitos queriam pular.

Na macroeconomia aos poucos o país começa a tomar uma direção. No primeiro mês do ano a inflação já caiu para índices abaixo da meta, os juros também começam a diminuir e algumas reformas planejadas pelo governo começam a avançar. Mesmo assim, o ritmo ainda é muito lento, nada que possa trazer alento para os mais de 12 milhões de desempregados (oficiais) do país. Apesar das declarações do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, de que ao final de 2017 a economia estaria crescendo a 2%, o Brasil ainda tem muitos obstáculos pela frente.

Na política avançam as investigações da Lava Jato e a publicação dos nomes dos políticos citados nos depoimentos da investigação é esperada com grande expectativa. O Supremo Tribunal Federal ainda continua ocupando um espaço excessivo na política nacional, o que tem desagradado o Legislativo e diversos segmentos da sociedade civil.

No setor do meio ambiente começamos o ano com notícias desalentadoras. Pressionado por parlamentares da região amazônica que defendem interesses do agronegócio, Temer deve apresentar proposta ao Congresso que reduzirá as áreas das Unidades de Conservação (UCs) já demarcadas na região. Segundo cálculos haverá uma redução de 2,7 para 1,7 milhão de hectares da área sob proteção, uma redução de cerca de 65%. Ao mesmo tempo, o governo noticia através do Ministério do Meio Ambiente que pretende aumentar o número de UCs federais no país, que atualmente totalizam 327 unidades.

A novela do acidente com a barragem em Mariana continua sem desfecho aceitável. A empresa Samarco havia sido condenada a depositar R$ 1,2 bilhão na Justiça, como parte do pagamento pelos danos causados pelo rompimento de sua barragem em 2015. Agora, em janeiro, a justiça federal suspendeu o pagamento por tempo indeterminado. Depois de deixar de pagar por três vezes valores devidos determinados pela Justiça, a empresa é premiada com a prorrogação da multa por prazo indeterminado. As idas e voltas do processo, sem apresentar qualquer decisão definitiva, faz com que também neste caso a Justiça acabe perdendo a credibilidade frente à população local e a opinião pública em geral. Mais uma vez está se dando mostra de que no Brasil qualquer crime acaba compensando.

A novidade no setor de saneamento é que há poucos dias o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) publicou seis editais de licitação para contratação de serviços técnicos especializados para a estruturação de projetos de participação privada em projetos de saneamento nos estados do Amapá, Alagoas, Maranhão, Pará, Pernambuco e Sergipe. Segundo o banco, 18 estados manifestaram interesse em estruturarem licitações públicas para projetos de saneamento em seus municípios. Sem recursos para investimento, estados e governo federal - ou até prefeituras - precisam encontrar soluções para definitivamente oferecerem serviços de tratamento de água e de esgoto mais eficientes à população.

Quanto à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) os preparativos, tanto no setor privado quanto no público avançam a passos lentos. Continuam as realizações de seminários, palestras e workshops, que apontam pequenas avanços aqui e ali. O grosso das prefeituras, no entanto, continua deitado em berço esplêndido, não se preocupando com o assunto. Ignoramus.
(Imagem: desenho de Frank Lloyd Wright do museu Guggenheim)

Albert Caraco, filósofo do caos

sábado, 4 de março de 2017
"Eu nasci para mim mesmo entre 1946 e 1948, foi então que abri meus olhos para o mundo, até este momento era cego." Albert Caraco, pensador e escritor


As primeiras três décadas do século XX foram um período de grandes movimentos sociais, econômicos e culturais. Depois da guerra entre a Rússia e o Japão (1905), ocorreu uma série de eventos catastróficos que moldaram a história do século XX (e também do século XXI): a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a Revolução Russa (1917), a quebra da bolsa de Nova York (1929); dando início a uma grave crise econômica que afetou o mundo por vários anos e contribuiu para a ascensão do nazismo (1933).

No campo da ciência, os avanços construíram a base da tecnologia eletrônica dos nossos tempos: a teoria Quântica, criada por Planck em 1900 e desenvolvida ao longo das primeiras décadas do século XX por outros cientistas; a teoria da Relatividade (1915) por Einstein e o Princípio da Indeterminação (1927) por Heisenberg. 

Nas artes a criatividade também foi muito grande: Expressionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, Abstracionismo, Dadaísmo e Surrealismo, entre os principais movimentos. Compositores como Schoenberg e Stravinsky revolucionavam a música, enquanto que intelectuais como Husserl, Durkheim, Russel, Heidegger, Tönnies, Scheler, Wittgenstein, Weber, Simmel, Dewey, Pareto, Ortega y Gasset, Whitehead e Sartre, foram alguns dos pensadores que ditavam novos rumos na filosofia e sociologia. 

Um mundo em ebulição. No meio de toda esta agitação cultural e social, ocorria a movimentação de milhões de pessoas das regiões rurais para as cidades. O velho ditado medieval alemão "Stadtluft macht frei nach Jahr und Tag" (O ar da cidade torna livre depois de ano e dia) concretizava-se para aqueles que ainda viviam no campo (as primeiras grande migrações para as cidades ocorreram na segunda metade do século XIX) e queriam participar da vida agitada das cidades. Ao mesmo tempo, grandes contingentes humanos, sem oportunidades nas cidades afetadas pela crise econômica, emigravam do continente europeu para as Américas, principalmente os Estados Unidos. 

Foi nesse ambiente que nasceu Albert Caraco. Filho de José Caraco e Elisa Schwarz, judeus sefarditas, Albert veio ao mundo em Istambul, em 8 de julho de 1919. A família Caraco viajou muito pelo Europa, passando por Viena, Praga e Berlim, para se estabelecer em Paris. Foi lá que Albert se graduou na École des Hautes Études Commerciales (Escola de Altos Estudos Comerciais) em 1939. Pressentindo o perigo do nazismo se alastrando na Europa, José Caraco toma a família e deixa Paris em direção à América do Sul, passando por Honduras, Brasil (Rio de Janeiro) e Argentina, estabelecendo-se no Uruguai. Lá a família se converte ao catolicismo e passa a morar em Montevidéu.

A permanência em tantos países durante sua infância e juventude fez com que Albert Caraco falasse e escrevesse alemão, francês, inglês e espanhol, o que lhe proporcionou acesso a grande parte da produção cultural desta línguas. Assim, ainda morando em Montevidéu, Albert Caraco publica peças de teatro e coleções de poemas. Em 1946, terminada a Guerra, a família volta para Paris, onde Albert Caraco permanecerá até o final da vida. 

Em Paris Caraco não exercia nenhuma atividade profissional, vivendo dos recursos da família. Também não se tem notícias de qualquer ligação sentimental que tivesse tido ao longo de sua vida. Era dedicado aos pais, principalmente a mãe, que chamava de "Señora Madre" em seus escritos. Levava vida regrada, dedicando seis horas por dia aos seus escritos - sua colossal obra até hoje não foi editada completamente. Depois de voltar a Paris, Caraco abriu mão do catolicismo ao qual havia se convertido junto com seus pais e voltou ao judaísmo. Em seus escritos declara-se ateu, nutrindo, no entanto, uma admiração pelo misticismo, a exemplo de seu contemporâneo em Paris, o filósofo romeno Emil M. Cioran (1911-1995). 

O sofrimento e a morte por câncer de sua mãe, "Señora Madre", o marcou profundamente. Tanto, que escreveu um livro, Post Mortem, descrevendo o desenvolvimento da doença e o efeito que o processo causava sobre ele. Mais tarde, no dia 7 de setembro de 1971, alguns dias depois da morte de seu pai, Caraco aos 52 anos dava cabo de sua própria vida, como já havia comunicado anteriormente a um editor.

Albert Caraco não foi um filósofo acadêmico, e talvez seja esta a grande característica de seu pensamento. O conteúdo único de suas obras, suas análises e críticas, caracterizam um pensamento filosófico peculiar. A maior parte da obra mais conhecida de Caraco foi publicada após sua morte. Apesar de ter produzido material bastante variado, formado por peças de teatro, poesias, ensaios filosóficos, meditações sobre arte e sociedade, diários e artigos diversos, Caraco sempre continuou ignorado pelo grande público. Mesmo na França, país onde lançou parte de seu trabalho, o autor é pouco conhecido, até mesmo no meio universitário. 

Pessimista e acusado de misógino e racista, Caraco reuniu em seus textos todas as contradições de sua época. Criticava um mundo que caminhava para a superpopulação e a destruição dos recursos naturais, guiado por governantes cegos e cínicos, que se utilizavam de falsas ideias para iludir as massas. Com relação a essas, criticava a situação do homem comum, atomizado e ao mesmo tempo massificado, tornado engrenagem de uma máquina imensa, da qual a finalidade lhe é desconhecida.

Partindo de pontos comuns às filosofias de Nietzsche (1844-1900), Schopenhauer (1788-1860) e Mainländer (1841-1876), entre outros, Caraco desenvolveu uma filosofia da indiferença, partindo dos temas clássicos do niilismo europeu. Um dos aspectos de sua obra é a análise e crítica de toda a hipótese explicativa das origens do universo; caos, absoluta indiferença, nada. Caraco analisou as consequências deste "nada" na sociedade, na arte, na política, na condição humana. Recusava as explicações religiosas - apesar de respeitar a espiritualidade -, qualquer forma de transcendência, toda forma de ordem. Estava preocupado com as catástrofes, a morte, a corrupção e a decadência e não tinha nenhum tipo de fé no progresso e na modernidade, ao contrário. Caraco sempre foi um grande demolidor destes mitos. Devido à estranheza de suas ideias, somente uma pequena parte das obras do pensador foram traduzidas para outras línguas, além do francês.

O pessimismo de Caraco fez com que algumas vezes fosse chamado de "Heresias de Cirene moderno". Heresias, pensador nascido na cidade de Cirene no século III AEC, argumentava que a felicidade é impossível de alcançar e que o objetivo da vida era evitar dor e tristeza. Para o filósofo, valores convencionais como riqueza, pobreza, liberdade e escravidão, são todos indiferentes e não produzem mais prazer do que dor. Heresias, provavelmente influenciado por missionários budistas que conheceu ao longo de sua vida, provocou vários suicídios por causa de sua doutrina, tendo sido proibido de ensinar.

Em seus escritos Caraco externou várias vezes a ideia de que nada no mundo merece ser salvo; nem a arte que degenerou em produto de consumo e embrutecimento das massas; nem a religião que além de fazer o mesmo também instrumentaliza as massas; nem a política e a economia, que levaram milhões de pessoas à morte e à miséria. 

As obras mais famosas de Caraco são Bréviaire du chaos (lançado postumamente em 1982) e Post mortem (lançado em 1968). Pelo que pudemos pesquisar, são estas as únicas obras do autor traduzidas para outras línguas; a primeira para o espanhol e o turco e a segunda somente para o espanhol. Outras obras escritas por Caraco e já lançadas, incluem:

1941. Inès de Castro (suivi de) Les martyrs de Cordoue. Rio de Janeiro : Livraria Geral Franco Brasileira. 173 p. (Deux tragédies classiques. La couverture porte : Editions Bel-Air).
Curiosamente, este livro consta como tendo sido lançado na cidade de Rio de Janeiro. Não conseguimos encontrar informações sobre qual foi o período de permanência da família Caraco na cidade. 

1942. Le cycle de Jeanne d’Arc (suivi d’un choix de poèmes). Buenos Aires : Argentina Aristides Quillet. (Plaquette illustrée par l’auteur).

1942. Le mystère d’Eusèbe, illustré par l’auteur. Buenos Aires : Argentina Arístides Quillet. 187 p.

1942/43. Contes. Retour de Xerxès. Buenos Aires : Argentina Aristides Quillet. 303 p. (Colophon daté 1942. Contes symboliques, fantastiques et philosophiques illustrés par l’auteur).

1949. Le livre des combats de l’âme. Paris : E de Boccard. 235 p. (Recueil de poèmes mystiques. Prix Edgar Poe, Paris).

1952. L’école des intransigeants : Rébellion pour l’ordre. Paris : Nagel. 289 ou 291 p. (Maximes morales).

1952/53. Le désirable et le sublime : phénoménologie de l’Apocalypse. Neuchâtel : A la Baconnière. 395 p. (Somme philosophique. Copyright 1952, imprimé en 1953). Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1978 ou 1979, 395 p.

1957. Foi, valeur et besoin. Paris : E de Boccard. 241 p.

1957. Apologie d’Israël, 1 : Plaidoyer pour les indéfendables. Paris : Fischbacher. 202 ou 203 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 2004, avec La marche à travers les ruines et Colonne d’ombre, colonne de lumière, 323 p.

1957. Apologie d’Israël, 2 : La marche à travers les ruines. Paris : Fischbacher. 205 ou 211 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 2004, avec Plaidoyer pour les indéfendables et Colonne d’ombre, colonne de lumière, 323 p.

1963. Huit essais sur le mal. Neuchâtel : A la Baconnière. 370 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1976 ou 1978, 370 p.

1965. L’art et les nations : la physique des styles. Neuchâtel : Ed. de la Baconnière. 333 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1979, 333 p.

1966. Le tombeau de l’histoire. Neuchâtel : La Baconnière. 605 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1976, 604 p.

1967. Le galant homme : un livre de civilité. Neuchâtel : A la Baconnière. 343 p. Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1979, 341 p.

1967. Les races et les classes. Lausanne : L’Age d’Homme. 413 p.

1968. Post mortem. Lausanne : L’Age d’Homme. 119 p. (La Merveilleuse Collection, 13). Rééd. sous le titre Madame Mère est morte, (Paris) : Lettres Vives, 1983 ou 1984, xiii-110 p. (Coll. Entre 4 yeux, préface Michel Camus). Repris sous le titre original en fin de volume du Semainier de l’agonie, 1985.

1968. La luxure et la mort : relations de l’ordre et de la sexualité. Lausanne : L’Age d’Homme. 257 p.

1970. L’ordre et le sexe. Lausanne : L’Age d’Homme. 272 p. (Préfaces en anglais, allemand, espagnol et français).

1974. Obéissance ou servitude. Lausanne : L’Age d’Homme. 403 p.

1975. Ma confession. Lausanne : L’Age d’Homme. 260 p.

1975. La France baroque. Lausanne : L’Age d’Homme. 245 p.

1975. Simples remarques sur la France. Lausanne : L’Age d’Homme. 168 p.

1976. L’homme de lettres : un art d’écrire. Lausanne : L’Age d’Homme. 293 p.

1982. Bréviaire du chaos. Lausanne : L’Age d’Homme. 126 p. (Collection Le bruit du temps). Rééd. Lausanne : L’Age d’Homme, 1999, 126 p. (coll. Amers, 1)

1982. Essai sur les limites de l’esprit humain. Lausanne : L’Age d’Homme. 257 p.

1983. Supplément à la « Psychopathia sexualis ». Lausanne : L’Age d’Homme. 174 p. (Collection Le bruit du temps)

1984. Ecrits sur la religion. Lausanne : L’Age d’Homme. 346 p.

1985. Le semainier de l’agonie : le semainier de 1963, suivi de Post mortem. Lausanne : L’Age d’Homme. 329 p.

1994. Abécédaire de Martin-Bâton. Lausanne : L’Age d’Homme. 156 p. (Coll. La Fronde).

1994. Semainier de l’incertitude. (Lausanne) : L’Age d’Homme. 202 p.

2001. Semainier de l’an 1969 : du 10 mars au 27 juillet. Lausanne : L’Age d’Homme. 157 p.

2004. Apologie d’Israël. Lausanne : L’Age d’Homme. 323 p. (Contient une réédition de Plaidoyer pour les indéfendables et de La marche à travers les ruines (1957) et la première édition de Colonne d’ombre, colonne de lumière).

Abaixo, algumas citações do filósofo, extraídas de algumas de sua publicações:

"Quanto mais eu fico velho, tanto mais a Gnosis fala à minha razão. O mundo não é ordenado por uma Providência, é intrinsecamente mau, profundamente obscuro, e a Criação é o sonho de um intelecto cego ou o jogo de um Princípio sem moral." (Ma Confession)

"...O Nada ou a História; temos que escolher entre duas alternativas, mas a segunda é muito frequentemente uma agonia perpétua e o Nada parece preferível... A Graça parece estar excluída, mas apesar da lógica, não é impossível que nos aconteça a Graça cair em uma linha vertical, abrindo um buraco entre nós e o atemporal, nós que estamos à mercê do rio no qual flutuamos." (Le Tombeau de l' Histoire)

"As cidades que habitamos são as escolas da morte, porque são desumanas. Cada uma se converteu em centro de boato e mau cheiro, cada uma convertida em caos de edifícios, onde nos empilhamos em milhões perdendo nossas razões de viver. Infelizes sem remédio, nos sentimos, querendo ou não, expostos aos labirintos do absurdo, do qual não sairemos a não ser mortos, porque nosso destino é sempre o de nos multiplicarmos, com o único objetivo de parecermos inumeráveis. A cada volta da roda, as cidades que habitamos avançam imperceptivelmente umas contra as outras, aspirando a confundirem-se. É uma mancha em direção ao caos absoluto, no ruído e no mau cheiro." (Breviario del caos)

"Quando quiserem saber quais foram nossos verdadeiros deuses, deverão julgar-nos segundo nossas obras e nunca segundo nossos princípios. Então não nos envergonharemos em responder e dizer que não nos permitiram dizer e nem sequer pensar: "Adorávamos a loucura e a morte". Na realidade, já não adoramos outra coisa, no entanto não podemos reconhecê-lo, porque a loucura e a morte são o fim das religiões reveladas, e estas religiões as contêm em potência, a começar pela cristã. Colocamos a morte e a loucura sobre os altares..." (Breviario del caos)

"Nossos intelectuais não sabem mais do que representar e nossos religiosos não sabem mais do que mentir. Nenhum sonha com repensar o mundo, nenhum nos propõe formas de examinar as evidências. Todos querem fazer carreira e é admirável a capacidade com a qual se utilizam uns dos outros, sem jamais ferirem as conveniências." (Breviario del caos)

"A catástrofe é necessária, a catástrofe é desejável, a catástrofe é legítima, a catástrofe é providencial. O mundo não se renova de outra maneira e se o mundo não se renova, deverá desaparecer com os homens que o infectam. Os homens se propagaram sobre o universo como uma lepra e quanto mais se multiplicam, mais o desnaturam. Creem servir aos seus deuses tornando-se mais inumeráveis. Seus comerciantes e sacerdotes aprovam sua fecundidade; uns porque os enriquece, os outros porque se lhes acreditam." (Breviario del caos)

"O mundo que habitamos é duro, frio e sombrio, injusto e metódico. Seus governos são imbecis patéticos ou grandes perversos. Nenhum deles está mais de acordo com esta época, estão superados. Sejam pequenos ou grandes, sua legitimidade parece inconcebível e o poder não é mais que um poder protocolar, um mal menor ao qual nos resignamos." (Breviario del caos)

"Pois vamos morrer com nossas obras e por nossas obras." (Breviario del caos)

"Nossos inimigos são aqueles que nos falam de esperança e nos anunciam um futuro de trabalho e paz, onde nossos problemas se resolverão e nossos desejos se realizarão." (Breviario del caos)

"Quando cada qual tem razão, tudo está perdido, tudo se torna permitido e possível; é a hora trágica por excelência e esta é a nossa." (Breviario del caos)

"Se os homens não esperassem nada, sua sorte não seria a mesma. Se os homens não acreditassem em nada, sua condição talvez mudasse. Assim a esperança e a fé só aumentam seus males, mas fazem felizes os seus amos." (Breviario del caos)

"Me contento com o Deus dos filósofos. Eu mesmo sou uma pessoa e não busco nada fora de mim. Consinto em minha morte eterna e a ideia de salvação me parece um delírio; ser salvo é uma violação metafísica." (Post mortem)


Fontes consultadas:
http://albert-caraco.blogspot.com.br/p/bibliographie.html
http://illusioncity.net/albert-caraco/
http://p2.storage.canalblog.com/25/21/1366039/111029471.pdf
https://archive.org/details/caracoca 
http://albert-caraco.blogspot.com.br/p/bibliographie.html
Caraco, Albert. Post mortem. México, D.F. Editorial Sexto Piso: 2006, 119 p.
Caraco, Albert. Breviario del caos. Madrid. Editorial Sexto Piso: 2004, 128 p.

Para aqueles interessados na obra de Albert Caraco, existe uma versão em PDF do Bréviaire du chaos (em francês) disponível em: (https://ia601403.us.archive.org/2/items/caracoca/caracoca.pdf)

Texto, traduções e adaptações: Ricardo E. Rose
(Imagem: fotografia de Albert Caraco)

Hortas comunitárias

sábado, 25 de fevereiro de 2017
"Ao renunciar à sociedade e à fortuna, encontrei a felicidade, a calma, a saúde, até mesmo a riqueza; e a despeito do provérbio, percebo que aquele que abandona a partida é o que acaba ganhando-a."  -  Chamfort  -  Máximas e pensamentos


A agricultura surgiu com as hortas comunitárias. Desde o período Neolítico, há 12 ou 10 mil anos, a agricultura vem sendo praticada por pequenos grupos humanos; famílias, vizinhos, que se juntavam para o plantio e a colheita. A agricultura em larga escala, na qual um dono (geralmente o Estado, os sacerdotes ou o rei) controlava grandes extensões de terra, surgiu quando se formaram agrupamentos humanos mais populosos. Foi nas grandes extensões de terras aráveis pertencentes à zona de influência das primeiras cidades-Estado da Suméria (região onde hoje é o Iraque e a Síria), do impérios egípcio, da região de Mohenjo-Daro na Índia e no vale do rio Amarelo (Huang He), que a agricultura em larga escala começou a ser praticada.
Muito provavelmente, no entanto, as hortas comunitárias continuaram a subsistir em áreas às vezes concedidas aos agricultores sem terra, para que plantassem produtos para consumo próprio. Este tipo de agricultura também contribuiu para a conservação da diversidade das espécies de plantas, pois certos tipos de grãos e sementes eram desconhecidos ou não eram utilizados pelos grandes agricultores. Por toda a história até os tempos modernos, as hortas comunitárias atenderam parte das necessidades alimentares das populações mais pobres, que dispunham de pouca ou nenhuma terra para plantio.

A industrialização, que ao longo dos últimos duzentos anos provocou a migração de milhões de pessoas do campo para as cidades, foi um dos fatores da disseminação da agricultura comunitária urbana, as hortas urbanas. Premidos pelos altos preços dos alimentos nas épocas de crises econômicas que se sucederam ao longo deste período, os novos moradores das cidades trouxeram consigo alguns dos conhecimentos do campo. No Brasil é significativo que as hortas comunitária começaram a surgir a partir dos anos 1980, associadas aos movimentos de luta pela moradia, movimentos de bairros e outros tipos de ações comunitárias.
Associadas aos movimentos populares da periferia das grandes cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as hortas comunitárias acabaram sendo adotadas também pelos movimentos alternativos e por grupos de classe média - estes morando em bairros centrais mais ricos. Por não necessitar de técnicas de difícil aprendizado e utilizar insumos e ferramentas de custo relativamente baixo, as hortas urbanas tornaram-se uma solução para diversos problemas sociais e de infraestrutura. Muitas comunidades de agricultores urbanos eliminaram transtornos com terrenos baldios, cheios de lixo ou entulho, que eram focos de ratos e insetos e frequentados por desocupados. A horta se transformou em local de encontro de vizinhos, espaço para reuniões e até festas. As plantas e as árvores frutíferas trouxeram de volta várias espécies de pássaros e outros animais, que em vista da falta de áreas verdes haviam abandonado certos bairros das cidades.
Em bairros da periferia, as hortas urbanas voltaram a dar uma nova oportunidade de vida para jovens envolvidos com as drogas e a criminalidade. Em São Paulo e em São Francisco, nos Estados Unidos, a participação nesta atividade está criando um vínculo entre os jovens e suas famílias, mantendo-os afastados das atividades ilícitas. Na cidade de Nova York, por exemplo, existem cerca de 900 hortas comunitárias.
A preocupação com a origem da comida é outro fator de desenvolvimento deste tipo de agricultura, já que a maior parte é feita em bases orgânicas, sem adição de produtos químicos. Um shopping center de São Paulo mantêm uma horta orgânica no telhado de seu prédio, cuidada pelos funcionários do estabelecimento. A adubação da terra é feita com resíduos orgânicos compostados, gerados pelo próprio centro de compras e o resultado do plantio é entregue aos funcionários que participam da iniciativa.    
Atualmente, parte considerável da população urbana dos países pobres e em desenvolvimento pratica a agricultura comunitária urbana. As últimas estatísticas datadas de 2008, davam como 800 milhões o número de agricultores urbanos espalhados por todo o planeta. No Brasil ainda não existem estatísticas mais exatas sobre estes números, o dificulta a implantação de políticas de incentivo mais amplas. O último projeto desenvolvido para este setor foi o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, ligado ao Programa Fome Zero, que no governo Temer não recebeu mais incentivos.
Por suas vantagens em diversas áreas - combate à fome, geração adicional de renda, combate ao crime, fortalecimento da vida social e cultural das comunidades -, além dos aspectos ambientais e de saneamento, as hortas comunitárias precisam ser incentivadas. É importante que cidades iniciem ou retomem antigos programas de disponibilização de áreas para plantio, sementes, ferramentas e treinamento. O contato com a terra e as plantas faz parte da constituição primitiva do homem.
(Imagens: pinturas de Erich Fraaβ)

Eric Hoffer, "filósofo-estivador"

sábado, 18 de fevereiro de 2017
"Meus textos são feitos nos pátios das ferrovias, enquanto espero um comboio, nos campos, enquanto espero por um caminhão, e à noite, depois da janta. Cidades são muito distrativas." Eric Hoffer, filósofo

As chances de ascensão econômica e social através do trabalho são mais acentuas em economias em crescimento. Nestas sociedades é comum que indivíduos ultrapassem as condições em que nasceram e através do esforço individual se transformem em grandes empresários, políticos e intelectuais. Esta era a situação da sociedade norte-americana entre o final do século XIX e grande parte do século XX. As estruturas sociais ainda não estavam estabelecidas, e o fato de não haver uma elite econômica e intelectual preponderante, permitia uma mobilidade social como poucas sociedades tiveram ao longo da história. 

Foi neste período da história dos Estados Unidos que nasceu Eric Hoffer, na cidade de Nova York, bairro do Bronx, em 1902. Filho de um casal de emigrantes alemães da Alsácia, Elsa e Knut Hoffer, Eric aprendeu a falar e ler inglês e alemão ainda pequeno. Aos cinco anos, caiu do colo da mãe em uma escada e ficou com a cicatriz da lesão na cabeça para o resto da vida. Aos sete anos, falece sua mãe, o que fez com que o menino entrasse em choque, perdendo a memória e a visão, para somente recuperá-la aos quinze anos.Durante esse período tinha pouco contato com o pai, que exercia a profissão de carpinteiro. Foi cuidado por uma amiga dos pais, Martha Bauer, também alemã, de quem Eric guardou boas recordações. Ainda cego, quando ficava entediado, Eric passava o tempo arrumando na estande os poucos livros do pai.

Assim que recuperou a visão, Hoffer passou a ler com voracidade, com medo de voltar a perder a visão. Nunca chegou a frequentar uma escola ou a aprender uma profissão, vivendo apenas de biscates e lendo tudo que era possível comprar nos sebos ou emprestar nas bibliotecas públicas de seu bairro. Quando tinha 19 anos, morre seu pai. O sindicato dos carpinteiros pagou pelo enterro  e deu-lhe a título de seguro um cheque de 300 dólares, com o qual comprou uma passagem de ônibus para Los Angeles. Lá se estabeleceu no bairro central de Skid Row, frequentado por vagabundos, marginais e trabalhadores pobres. Viveu em Los Angeles por dez anos, mantendo-se através de empregos baratos, sem abandonar seu entusiasmo pela leitura.

Em 1931 Hoffer pensou em suicídio, mas mudou de ideia e começou um longo período de viagens através de várias regiões, trabalhando principalmente nas colheitas da Califórnia. Algumas vezes também tentou a vida como garimpeiro de ouro. Durante estes anos fixava-se em pequenas cidades, morando em locais perto das bibliotecas municipais, para poder emprestar livros. Em um inverno no início dos anos 1940, Eric adquiriu em um sebo de São Francisco um exemplar dos Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). A obra o impressionou de tal maneira, que permaneceu uma influência por toda a sua vida.

Nesse período Eric começa a escrever algumas novelas e tenta alistar-se como soldado, para lutar na Segunda Guerra. Impedido por uma hérnia, Hoffer começou a trabalhar como estivador nas docas do porto de São Francisco. Permaneceu nesse trabalho por longos anos, vindo a aposentar-se em 1964. Durante o período que trabalhou nas docas, Hoffer começou a escrever as obras que o tornariam famoso. Passou a interessar-se pelos problemas dos imigrantes, dos trabalhadores migrantes, dos deficientes e de todos aqueles que não tinham achado "um lugar ao sol" na sociedade americana.

Seu livro mais famoso, lançado em 1951 chama-se The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements ( Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente e a Natureza dos Movimentos de Massa, edição portuguesa esgotada - sem edição no Brasil). Neste livro Hoffer discute a origem dos governos totalitários de sua época. A publicação é considerada uma das 100 mais influentes obras do século XX. Depois deste livros Hoffer escreve uma série de ensaios acadêmicos discutindo a intervenção americana na Ásia durante a 2ª Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. Em sua opinião, o governo americano deveria diminuir sua ingerência nos países de todo o mundo. Ao longo de sua carreira, depois de The True Believer, Hoffer publicou as seguintes obras (todas inéditas no Brasil):

1955 The Passionate State of Mind, and Other Aphorisms

1963 The Ordeal of Change

1967 The Temper of Our Time

1968 Nature and The City

1969 Working and Thinking on the Waterfront: A Journal, June 1958 to May 1959

1971 First Things, Last Things

1973 Reflections on the Human Condition 

1976 In Our Time

1979 Before the Sabbath

1982 Between the Devil and the Dragon: The Best Essays and Aphorisms of Eric Hoffer 

1983 Truth Imagined 

Hoffer passou longos anos entre a carreira acadêmica, como pesquisador tratando de temas políticos e sociais da sociedade americana, e como estivador. Hoffer efetivamente passava certos dias da semana na Universidade da Califórnia e outros trabalhando nos escritórios das docas do porto de São Francisco. Em 1971 o filósofo recebeu o título Doutor Honoris Causa da Faculdade Stonehill e em 1983 a Medalha Presidencial da Liberdade, do presidente Ronald Reagan.

Sempre voltado às suas origens na classe trabalhadora, Hoffer, quando chamado de intelectual, dizia ser apenas um estivador. Por isso, muitos autores o designavam como "o filósofo-estivador". Tendo exercido grande influência no meio acadêmico e nos nascentes movimentos sociais, Hoffer faleceu em sua casa, em São Francisco, em 1983 aos 84 anos.

Abaixo apresentamos algumas citações do filósofo, extraídas de diversas publicações:

"Pessoas que ferem a mão que os alimenta, usualmente lambem as botas de quem os chuta." (Reflections on the Human Condition)

"Quando as pessoas estão livres para fazer o que gostam, geralmente imitam as outras." (Reflections on the Human Condition)

"A melhor educação não imunizará uma pessoa contra a corrupção do poder. A melhor educação não fará, automaticamente, as pessoas mais compassivas. Nós sabemos disso mais claramente do que qualquer geração precedente. Em nosso tempo, existe a sociedade melhor educada, situada no coração da mais civilizada parte do mundo, dando nascimento ao mais assassino e vingativo governo da história." (Before the Sabbath)

"A natureza não tem compaixão...[Ela] não aceita desculpas e a única punição que conhece é a morte." (Reflections on the Human Condition)

"Marx nunca trabalhou um dia de sua vida e sabia tanto sobre o proletariado quanto eu sei sobre coristas." (Before the Sabbath)

"Uma cabeça vazia não é realmente vazia; está entulhada de lixo. Por isso a dificuldade em empurrar algo para dentro de uma cabeça vazia." (Reflections on the Human Condition)

"O século dezenove semeou as palavras que o século vinte colheu nas atrocidades de Stalin e Hitler. Dificilmente há uma atrocidade cometida no século vinte, que não tenha sido prenunciada ou mesmo defendida nas palavras de alguns homens nobres do século dezenove." (Reflections on the Human Condition)

"A proporção entre o pessoal de supervisão e o de produção é sempre alta onde intelectuais estão no poder. Em países comunistas, é necessária uma parte da população para supervisionar a outra." (The Temper of our time)

"Orgulho é um senso de valor derivado de algo que não é organicamente parte de nós, enquanto que a autoestima deriva de nossas potencialidades e de nossos ganhos. Somos orgulhosos quando nos identificamos com um eu imaginário, um líder, uma causa sagrada, um corpo coletivo ou bens materiais. Há um medo e uma intolerância no orgulho; é sensível e intransigente. Quanto menos promessa e potencia na pessoa, mais imperativa é a necessidade de orgulho. O âmago do orgulho é a autorejeição. É verdade que quando o orgulho libera energias e atua como um incentivo para a realização, pode levar a uma reconciliação entre o eu e a conquista de uma autoestima genuína." (The Passionate State of Mind)

"Para algumas pessoas a solidão não é uma fuga dos outros mas delas mesmas. Isto porque, veem nos olhos dos outros apenas um reflexo delas mesmas." (The Passionate State of Mind)

"Mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos." (The Passionate State of Mind)

"Como é mais fácil o autosacrifício do que a autorealização." (Reflections on The Human Condition)

"Agressividade é a imitação da força, feita pelo homem fraco." (The Passionate State of Mind)

"Não conformistas andam geralmente em bandos. Você raramente vai achar um não conformista andando sozinho. E ai daquele que dentro de um bando de não conformistas, não se conformar à não conformidade." (Reflections on the Human Condition)

"Homens livres sabem da imperfeição inerente aos assuntos humanos, e estão preparados para lutar e morrer pelo que não é perfeito. Eles sabem que problemas humanos básicos podem não ter uma solução final, que nossa liberdade, justiça, equidade, etc, estão longe do absoluto e que a boa vida é composta por meias medidas, compromissos, males menores e tentativas em direção ao perfeito. A rejeição de aproximações e a insistência em absolutos, são a manifestação de um niilismo que rejeita a liberdade, a tolerância e a equidade." (The Temper of Our Time)

Fonte das citações:
http://erichoffer.blogspot.com.br/ e https://www.brainyquote.com/quotes/authors/e/eric_hoffer.html

Para aqueles interessados nos escritos de Eric Hoffer é possível fazer o download da obra The True Believer (texto em inglês) através do link abaixo:
http://evelynbrooks.com/wp-content/uploads/2011/10/The_True_Believer_-_Eric_Hoffer.pdf

Texto e traduções: Ricardo E. Rose
(Imagem: fotografia de Eric Hoffer)

Banheiro público, pra quê?

sábado, 11 de fevereiro de 2017
"Comer é humano, mas digerir é divino." -  Mark Twain

Já notaram que as estradas brasileiras não possuem banheiros públicos? Em quase todos os países, principalmente os que procuram se colocar naquela categoria que se convencionou chamar de "civilizado", as autoestradas possuem banheiros públicos. Mas não é aquele banheiro do restaurante de estrada "que oferece este serviço adicional ao cliente". Do tipo "vou fazer um lanchinho e aproveitar pra tirar uma água do joelho". Não, é banheiro mesmo, mantido pelo órgão público ou concessionária privada que administra a estrada. E é banheiro limpo, podendo ser usado por toda a família - mulheres e crianças inclusive -, com papel higiênico e de mão à vontade. Melhor do que muito banheiro de shopping center por aqui. Às vezes o usuário paga um pequeno valor para ajudar na manutenção do serviço e inibir a entrada de arruaceiros.
Presumo que tais instalações sanitárias sejam caríssimas, daí a dificuldade da maioria dos países em construí-las e fazerem parte do mundo civilizado (aquela história de não cuspir no chão, lavar as mãos regularmente, saber comer com garfo e faca, "Obrigado", "Bom dia", "Com licença", etc.). Os custos dos banheiros públicos devem ser altos, o que torna impossível incluir a construção destes luxuosos estabelecimentos nos projetos das nossas rodovias. Se as concessionárias fossem forçadas por alguma draconiana lei a construírem banheiros ao longo de suas estradas, com certeza teriam que aumentar em muito a taxa de pedágio. No caso das rodovias administradas pelos governos, a construção de banheiros é fora de questão; só se fosse aprovado mais um imposto.
Outro aspecto a ser considerado é se tais instalações seriam realmente necessárias. Afinal, com tantos restaurantes, churrascarias, lanchonetes, ranchos da pamonha ao longo das nossas estradas, quem faria uso do sanitário público? Não dando para esperar o próximo restaurante daquela famosa rede a apenas 35 quilômetros, sempre existe a opção do matagal. As vezes não há nem necessidade de uma cobertura vegetal; é só encostar no carro e se aliviar! À parte o deplorável espetáculo para os outros viajantes que transitam pelo local no exato momento do ato, nada demais que a cultura popular não possa assimilar. Quem passa apertos são as mulheres. Estas têm que realmente dar um jeito e esperar chegar o restaurante, que agora está a apenas 15 minutos, à frente.

Melhor assim. Pra que banheiro público? Afinal, são poucos os dias do ano em que algumas de nossas estradas estão tão apinhadas de carros, que uma viagem de 100 ou 150 quilômetros pode levar 5, 6, 8 horas! Nestas datas fatídicas - véspera do Ano Novo, Carnaval, Páscoa e alguns feriados - dá se um jeito. Afinal, não somos o país do improviso e da adaptação? É como disse aquele político ligado a famosas empreiteiras: "Banheiro público é coisa de país rico. Nós temos imensos e quase inexplorados acostamentos!" Segurança em primeiro lugar! O importante é que a estrada seja boa pra que meu carro - lavado, polido e com rodas especiais - tenha uma estrada boa e segura pra transitar!
(Imagens: fotos de banheiros públicos na antiga Roma)

Comentando Marilena Chauí e Edmund Husserl

sábado, 4 de fevereiro de 2017
"Quot homines, tot sententiae (Quantos são os homens, tantas são as sentenças) Terêncio (195-159 a.C.)

A afirmação de Marilena Chauí em Convite à Filosofia é a seguinte: [...] “não há 'coisa em si' incognoscível. Tudo o que existe é fenômeno e só existem fenômenos. Fenômeno é a presença real de coisas reais diante da consciência; é aquilo que se apresenta diretamente, 'em pessoa', em 'carne e osso', à consciência”.
A fenomenologia parte do pressuposto da realidade e da verdade dos fenômenos, das coisas que “aparecem”, dos dados que se nos apresentam à consciência. Não se trata, como na filosofia kantiana, de que as coisas estão só na mente, na percepção e que além desta percepção se estende o misterioso mundo da “coisa-em-si”. Todavia, de Kant Husserl ainda conserva a afirmação de que não conhecemos uma realidade em si mesma, mas a realidade estruturada a priori pela razão. Esta realidade que captamos pela razão é a essência dos fenômenos, o “eidos”. Husserl afirma que a filosofia é eidética, pois apreende a essência dos fenômenos. 
Para Husserl a fenomenologia (diferente da psicologia que é uma ciência dos fatos) é a ciência das essências. A fenomenologia utiliza-se da redução eidética, através da qual expurga os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas, levando-os ao plano da generalidade essencial, transformando-os em essências, em universais.
Para conhecer as essências, os universais, segundo Husserl, partimos de uma intuição das essências. Assim, redução eidética e o processo de intuir para conhecer as essências dos fenômenos, é a mesma coisa.
Todavia, para que possamos conhecer a essência do fenômeno, é preciso utilizar-se da epoché, que é um movimento mental de “colocar entre parênteses” as próprias convicções filosóficas, científicas e nosso senso comum. Suspendendo todo tipo de juízo sobre as coisas e olhando-as em sua essência, alcançamos a consciência daquilo que é absolutamente evidente (fico pensando se Hume teria a mesma opinião sobre estas “ginásticas mentais” e se Husserl alguma vez efetivamente atingiu o estado de “ver a essência do fenômeno”).
Como corolário desta investigação, Husserl chega à conclusão de que o movimento da consciência é intencional, já que toda a consciência é consciência de alguma coisa. Isto quer dizer que todo pensamento tem sempre um objeto. Por toda esta atividade que exerce, Husserl afirma que a consciência é “doadora de sentido”, já que as essências nada mais são do que significações produzidas pela consciência, tendo como matéria prima os fenômenos (por que será que sinto um cheiro forte de kantismo aqui?). A realidade adquire sentido através da ação da consciência.

A consequência do pensamento fenomenológico em relação à metafísica é que esta deixa de existir como algo além do sujeito, para tornar-se algo que o sujeito, através do pensamento, transmite à realidade – cujo sentido, aliás, é dado pelo próprio sujeito.
Bibliografia:
ABBAGNANNO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo. Martins Fontes: 2007, 1.210 p.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosoia. São Paulo. Editora Atica: 2010, 424 p.
CRESPO, Luís F.; COLOMBINI, Elaine A. M. Filosofia Geral: Problemas metafísicos II. Batatais. CEUCLAR: 2007, 37p.
SOKOLOWSKI, Robert. Introdução à fenomenologia. São Paulo. Edições Loyola: 2004, 247 
(Imagens: fotografias de José Medeiros)

Os raios e o meio ambiente

sábado, 28 de janeiro de 2017
"O universo é infinito. Pois aquilo que é limitado possui um extremo, mas um extremo só pode ser percebido comparando-o com algo diferente. (Ao lado do universo, porém, nada é perceptível.) Já que o universo não possui limite, e já que não possui limite, deverá ser limitado e infinito."  Epicuro  -  Carta a Heródoto

O aumento médio da temperatura da Terra nos últimos anos está trazendo verões mais quentes, com trovoadas mais fortes e maior número de relâmpagos. Segundo o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), morrem no Brasil cerca de 120 pessoas anualmente devido às descargas de raios. A tendência é que quanto mais alta a temperatura, maior a incidência destas descargas elétricas. Devido à sua localização geográfica e extensão territorial, o Brasil é o país no mundo com maior incidência destes fenômenos atmosféricos.
Os raios são gigantescas faíscas de eletricidade estática, geradas durante uma tempestade. A eletricidade forma-se dentro de nuvens do tipo cumulonimbus, que alcançam 18 quilômetros de altitude, onde as temperaturas estão em torno dos 60ºC negativos. As faíscas elétricas ocorrem dentro de uma mesma nuvem, entre duas nuvens e entre uma nuvem e o solo. Como e porque se formam estas imensas descargas, ainda não está completamente explicado pela ciência. O ar em torno de um relâmpago chega a 30.000 graus Celsius (a temperatura da superfície do Sol é de 6.000ºC) e estas partículas aquecidas da atmosfera são chamadas de plasma, emitindo a luz característica da faísca. A tensão contida num raio chega a 100 milhões de volts, com uma intensidade de 30 mil ampères (cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro de banho).
Segundo a revista Super Interessante, cerca de 3,15 bilhões de raios caem sobre a Terra por ano. As regiões de sua maior incidência são a África Central (Congo e Ruanda) e a região do Lago Macaraibo, na Venezuela. O Brasil recebe descargas anuais de cerca de 100 milhões de raios, em sua maior parte na região Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Os raios sempre tiveram um papel importante na história da vida na Terra. Segundo os cientistas, nos primórdios do planeta há 3,8 bilhões de anos, as descargas elétricas tiveram um importante papel na formação de aminoácidos – moléculas básicas para a vida – catalisando reações químicas entre substâncias como amônia, metano e hidrogênio. Ao longo da evolução da vida, os relâmpagos sempre estiveram presentes nas tempestades, produzindo óxido de nitrogênio (NOx), que reagindo com a luz do Sol e outros gases da atmosfera gera o gás ozônio. Este, próximo ao solo, pode afetar a saúde de todos os seres vivos; plantas, animais e o homem. Nas partes mais elevadas da atmosfera, na troposfera com altura de até 12 km, o ozônio é causador do efeito estufa. Na estratosfera, entre 12 e 50 quilômetros, o ozônio passa a atuar como bloqueador da radiação solar ultravioleta, causadora do câncer de pele.

Pesquisas recentes, ainda em andamento, parecem indicar que o volume de geração de óxido de nitrogênio (NOx) através dos relâmpagos é bem maior do que era estimado até o momento. Especulam os cientistas que maior quantidade de NOx na troposfera deva acelerar o efeito estufa, aquecendo ainda mais a atmosfera. Esta aquecida, aumentam as trovoadas e os raios, que por sua vez elevam os volumes de NOx. Até o momento, dada a extrema complexidade dos fenômenos atmosféricos e dos ainda incalculáveis fatores que podem influenciar e retroalimentar este processo, não há uma explicação clara sobre seu funcionamento. Enquanto continuam pesquisando, convêm continuar a tomar cuidado com os raios.
(Imagens: fotografias de humoristas americanos - Gordo e Magro e Três Patetas)

Newsletter janeiro/fevereiro 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

(originalmente publicado no site www.ricardorose.com.br)

No final de 2016, perto da chegada do Ano Novo, encontrávamos pessoas desejando um Feliz 2018. Seguindo a sequência de tempos ruins que teve início em final de 2014, parece que 2017 não trará grandes novidades, em nenhum aspecto.
No plano econômico não são esperadas surpresas. A inflação está caindo desde o final de 2016 e os juros deverão iniciar sua queda lenta e gradual ao longo do ano, dependendo da cautela do Banco Central. Mas nada que volte a ativar o consumo, já que o número de desempregados ainda continuará em ascensão até o segundo semestre de 2017. A indústria, que apresenta dados melhores - a queda da produção industrial está gradualmente caindo menos - desde o final do último ano, deve recuperar-se lentamente, dependendo do vagaroso aumento da demanda. Assim, na economia, o quadro não é muito animador.
Na política o ambiente é confuso: o espectro da Lava Jato continua rondando o Congresso, o Judiciário tem forte participação do processo político e há uma crônica ausência de verdadeiras lideranças, principalmente tendo em vista as eleições de 2018. O governo conseguiu aprovar a PEC 241 que limita os gastos públicos e encaminhou a PEC 287 da Reforma da Previdência. Além disso, Temer conseguiu que a Câmara aprovasse o PL 4330/04 que flexibiliza a CLT, projeto que agora espera uma aprovação do Senado. Se por um lado foi capaz de estabelecer limites para os gastos públicos e encaminhar outras providências de cunho liberal, o governo continua e continuará a enfrentar forte oposição, principalmente de centrais sindicais, funcionários públicos e categorias profissionais com sindicatos fortes – metalúrgicos, bancários, químicos, entre outros. Para o restante dos trabalhadores, sem forte representação sindical e pressionados pela crise econômica, as medidas talvez ajudem a tornar o mercado de trabalho um pouco mais dinâmico e propício às contratações. Um dos itens que ainda falta discutir seriamente é a situação do serviço público, principalmente o federal, cada vez mais cumulado de privilégios.
O meio ambiente definitivamente não constou da agenda dos dois governos (Dilma e Temer) em 2016. Os investimentos em saneamento, por exemplo, segundo dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), coordenado pelo Ministério das Cidades, caíram em 9%, diminuindo de R$ 13,9 bilhões em 2014 para R$ 12,7 bilhões em 2015. Lembremos que segundo dados do Banco Mundial, ainda da década passada, o país deveria investir cerca de R$ 25 bilhões anuais para alcançar cobertura completa de saneamento até 2030. Para 2017 o governo falou em projetos de concessão de serviços públicos para o setor privado, mas não mencionou o setor de saneamento.
A gestão de resíduos, cujo principal tema é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), avança gradualmente entre as empresas e associações do setor privado, notadamente nos grandes grupos econômicos que geram grandes volumes de resíduos. As prefeituras praticamente ignoram o assunto, notadamente as cidades de menor população, cujos prefeitos serão obrigados a implantarem uma política de gestão de resíduos somente em quatro a seis anos – quando gestores muito provavelmente já não estarão mais nos cargos.

A novidade positiva no setor é que em função da crise hídrica e econômica a população está aprendendo a utilizar melhor recursos como água, eletricidade e outros insumos. A falta de recursos para manter o consumo aliado ao aumento das tarifas, fez com que os consumidores reduzissem em média em 20% o consumo de eletricidade e água. Paralelamente, grandes empresas dependentes de água estão investindo em projetos de recuperação de vegetação, visando aumentar o volume do líquido disponível nas bacias hidrográficas.
(Imagem: pintura de Thomas Gainsborough)

Sobre a informação

sábado, 14 de janeiro de 2017

Se é possível calcular o número de átomos existentes no universo, então também é possível calcular o número de interações entre eles?

Se recortarmos o texto de um jornal e o colarmos em um texto qualquer, a coisa toda pode não fazer sentido, isto é, vai destoar da “ordem” existente no texto original. São, na realidade, duas “ordens” – uma maior (o texto existente) e uma menor (o texto recortado do jornal) que foram colocadas juntas. Mas, por não terem uma relação imediata, não formam algo que faça sentido.

Qual seria o limite de texto, imagem, ideia, som, etc., inteligível, para que uma coisa faça sentido, seja apreendida, seja logicamente compreensível?

Ou seja, qual é o limite de informação que precisamos obter, para que qualquer coisa faça sentido (em outras palavras: queira nos dizer algo)?

Mais: os dois textos citados podem formar uma nova “ordem”, composta por duas ordens que não conseguimos relacionar? Neste caso, qual é a informação necessária, para que os dois textos formem uma mensagem coerente? 

A filosofia no ensino médio

sábado, 7 de janeiro de 2017

Houve um período durante o governo militar (1964-1984) em que o ensino da filosofia foi dificultado, se não eliminado. O processo de supressão da filosofia dos currículos escolares começou no final da década de 1960, quando foi dada às escolas a opção de não ensinarem a matéria. As escolas que já não tinham muito interessem em ministrar a disciplina, acataram a lei como mandatória. Finalmente, em 1971, o Ministério da Educação editou uma nova lei que proibia o ensino da filosofia nas escolas de todo o país. Ficamos assim um longo período sem ensino da filosofia. Quais as razões e as consequências disso? 

Por um lado, o país estava sob jugo de um regime militar não democrático, sem eleições livres, sem liberdade de imprensa e de expressão. Como todos os países do planeta entre os anos 1950 e 1980, éramos protagonistas de uma grande batalha entre os Estados Unidos, representando o sistema capitalista, e a União Soviética, representando o mundo comunista. Internamente tínhamos um capitalismo em desenvolvimento, o país estava começando seu processo de industrialização e urbanização. Havia uma pequena classe média ascendente, que pela primeira vez na história do país tinha acesso a bens com os quais no passado havia apenas sonhado. Sob o aspecto das carreiras profissionais, a grande maioria dos poucos brasileiros que chegava ao ensino superior optava pelas áreas da medicina, da engenharia e do direito. Dentro deste contexto político, sócio-econômico e educacional, a carreira de filósofo parecia, no mínimo, estranha. Além disso, com as revoltas estudantis em todo o mundo durante o mês de maio de 1968 – no Brasil especificamente encabeçadas pelos estudantes de filosofia da USP da Rua Maria Antonia – os estudantes de filosofia acabaram adquirindo a pecha de “baderneiros e comunistas”. Definitivamente no período da ditadura militar a filosofia não gozava de boa fama.

Outro fator que no imaginário brasileiro causou desinteresse pela filosofia foi a imagem de ser uma matéria teórica, pouco afeita à prática. Os filósofos, com seus sistemas, eram retratados como estudiosos que viviam longe dos problemas diários do país – que envolviam o mundo do mercado e da produção, do trabalho e das grandes obras, etc. – com as quais o pensador supostamente (pelo menos dentro do padrão criado pela mídia) nada tinha a ver. A profissão não tinha mercado de trabalho, já que a ênfase da época no país era o crescimento, a produção a mobilidade e não a análise, a crítica ou o questionamento. Os cursos em quase sua totalidade estavam extintos e a grande maioria dos filósofos ocupava cargos em outras áreas da cultura. Este período no Brasil pode ser comparado à segunda metade do século XIX na Inglaterra, tão criticado por Nietzsche, que chamava os ingleses de “povo de negociantes e industriais”, sem qualquer preocupação filosófica.

Em 1984 inicia-se o período de redemocratização. As instituições voltam a funcionar, recupera-se a liberdade de imprensa e de crítica. Antecedendo em alguns anos a volta da democracia, o país vivia iludido com a idéia de que bastaria a volta das instituições democráticas, para que a maior parte das estruturas voltasse a funcionar normalmente como antes, entre outros o sistema de ensino. Aqui convêm lembrar que durante o período militar a qualidade do ensino no Brasil caiu vertiginosamente. Muito mais do que uma intenção premeditada em manter o povo na ignorância, segundo Darcy Ribeiro, a queda na qualidade do ensino se deve à sua massificação; à intenção de pulverizá-lo, sem atentar para a qualidade. Todavia, é fato que depois da volta da democracia, a deterioração do ensino público foi ainda maior. A impressão que se tem é que desde o regime ditatorial a educação nunca mais achou seu caminho, sendo vítima de experiências educacionais diversas, que não conseguem melhorar a qualidade da estrutura responsável pelo ensino: planejadores, professores e escolas. Além disso, os próprios alunos muitas vezes não reúnem condições físicas e psicológicas para receber o ensino, já que passam por problemas de carência de alimentação, de apoio familiar e de auto-estima.

A consequência desta situação é que todo sistema de ensino acabou se deteriorando. A reintrodução do ensino da filosofia, obrigatório a partir de 2008, também ficou comprometida com o baixo índice de qualidade do sistema educacional. Se, teoricamente, a Lei das Diretrizes e Bases da educação nacional prevê que o ensino secundário deve preparar o aluno para ter uma visão ampla sobre os diversos conhecimentos humanos – ciências naturais e humanas – e assim a filosofia seria como que um coroamento deste processo, capacitando o futuro cidadão a fazer uma síntese deste conhecimento, o objetivo não tem sido alcançado até o momento.

Recentemente o governo Temer introduziu outra reforma do ensino, no qual as matérias tornadas obrigatórias no ensino médio a partir de 2008, filosofia e sociologia, já não o serão mais. Aparentemente, a formação do aluno no ensino médio deverá se tornar mais específica, abandonando a ênfase universalista em benefício de uma educação voltada a áreas mais específicas e técnicas.

Não é possível que com um ensino fundamental incipiente, no qual o aluno muitas vezes não chega a aprender a ler ou escrever corretamente, seja construída a base para o ensino da filosofia no ensino médio – ou outras matérias que venham a ser adicionadas ao currículo. A filosofia pode ampliar substancialmente o horizonte cultural dos alunos do ensino médio, mas nada ou pouco pode fazer se o solo está estéril e os alunos não têm a mínima capacidade – e, conseqüentemente interesse – em se aprofundar nos textos e nas idéias dos filósofos. Se não houver uma melhoria da qualidade do ensino no período fundamental e médio, o ensino da filosofia, da sociologia e de outras matérias técnicas, poderá ser mais um engodo, como o foram os outros planos para reforma do ensino ao longo da história do Brasil.